Como resolver questões de concurso: método para certo/errado e múltipla escolha
Passo a passo para resolver questões de concurso policial: quando começar, como ler o comando, filtrar por banca, corrigir os erros e misturar assuntos para fixar.
Equipe KumuAtualizado em 7 min de leitura
Resolver questões de concurso do jeito certo é usá-las como estudo, não só como teste: comece cedo, antes de dominar a teoria; filtre por banca e assunto; leia o comando procurando a palavra que decide o gabarito; e corrija cada erro anotando a regra certa. A quantidade importa, mas a correção é onde o aprendizado acontece. Abaixo está o método completo, com exemplos no estilo das bancas.
Por que questões são a principal ferramenta de estudo
Responder perguntas não serve apenas para medir o que você sabe. Em um estudo clássico, Roediger e Karpicke (2006) compararam estudantes que releram um texto com estudantes que fizeram testes sobre ele. Uma semana depois, quem fez testes lembrava mais, mesmo sem ter recebido as respostas. Esse fenômeno é o efeito do teste (ou prática de recuperação).
Em outro experimento, Karpicke e Blunt (2011) compararam a prática de recuperação com a elaboração de mapas conceituais. A recuperação produziu mais aprendizado no teste final, inclusive em questões de inferência, que exigem aplicar o conteúdo. A revisão de Dunlosky e colegas (2013) deu à prática de testes a nota mais alta de utilidade entre dez técnicas avaliadas.
Para concurso, há ainda um bônus: questões de provas anteriores mostram o vocabulário, as pegadinhas e os assuntos preferidos da banca.
Questões antes da teoria
Você não precisa terminar a teoria para começar as questões. O efeito do pré-teste mostra que tentar responder antes de estudar, mesmo errando, pode melhorar o aprendizado do conteúdo estudado em seguida (Richland, Kornell e Kao, 2009). Na prática:
- Faça 5 a 10 questões do assunto antes de abrir a teoria.
- Não se preocupe com a nota. Observe o que a banca pergunta.
- Estude a teoria com foco nesses pontos.
- Volte às questões, agora em maior quantidade.
Passo a passo para resolver uma questão
1. Leia o comando primeiro
O comando diz o que está sendo pedido: julgar à luz da Constituição, da lei, da jurisprudência; marcar a correta ou a incorreta. Muita questão errada é questão lida pela metade.
2. Identifique o assunto e a regra
Antes de olhar as alternativas ou de julgar o item, pergunte: qual artigo, conceito ou princípio está em jogo? Isso ativa a regra certa na memória.
3. Procure a palavra que decide
Em itens de certo ou errado, a banca muitas vezes copia a regra e troca um detalhe. Marque mentalmente:
- Palavras de extensão: "sempre", "nunca", "somente", "qualquer", "independentemente".
- Exceções: "salvo", "exceto", "ressalvado".
- Sujeitos: quem pode fazer o quê (juiz, delegado, Ministério Público).
- Prazos e números.
4. Compare com a regra e decida
Se o item bate com a regra, certo. Se há um detalhe trocado, errado. Se você não sabe, decida pela estratégia de chute do seu edital (veja abaixo).
5. Corrija e anote
Depois do bloco, confira o gabarito e, para cada erro, escreva a regra correta em uma linha no caderno de erros. Pular essa etapa desperdiça boa parte do exercício.
Como a banca cobra: exemplo comentado
Item no estilo da banca, escrito para este artigo:
Nas excludentes de ilicitude previstas no Código Penal, o agente responde apenas pelo excesso doloso, já que o excesso culposo é sempre impunível.
Gabarito: errado. O parágrafo único do art. 23 do Código Penal diz:
"O agente, em qualquer das hipóteses deste artigo, responderá pelo excesso doloso ou culposo."
A palavra que decide é "apenas", reforçada por "sempre impunível". Quem leu rápido e lembrou só de "excesso" marcou certo. Para entender o tema por inteiro, veja excludentes de ilicitude e o texto vigente do art. 23 do CP.
Certo ou errado e múltipla escolha pedem estratégias diferentes
Certo ou errado (estilo Cebraspe)
Cada item é julgado sozinho. Em provas no modelo certo ou errado do Cebraspe, o edital costuma prever que um item errado desconta pontos, o que muda a decisão de deixar em branco ou arriscar. Leia a regra de pontuação do seu edital e entenda o cálculo em como funciona o certo ou errado do Cebraspe e vale a pena chutar no Cebraspe.
Múltipla escolha (FGV, Vunesp e outras)
Não há desconto por erro na maioria dos editais de múltipla escolha, mas confirme no seu. A técnica central é a eliminação: risque as alternativas que você sabe que estão erradas e compare as que sobraram. Atenção a comandos que pedem a incorreta. Veja o estilo de uma banca específica em como a FGV cobra em concursos policiais.
Como escolher as questões
- Prova oficial antes de questão inédita. Questões de provas anteriores mostram o padrão real da banca. As questões com gabarito oficial estão separadas por banca e disciplina.
- Sua banca primeiro. Se a sua carreira costuma ter Cebraspe, priorize Cebraspe. Depois, use outras bancas para ampliar o volume.
- Provas recentes primeiro. Leis mudam. Questões antigas podem ter gabarito desatualizado; desconfie quando a resposta contrariar o texto vigente da lei.
- Assuntos de maior incidência. A ferramenta o que mais cai mostra os assuntos mais cobrados na sua carreira, ponderados pelo peso da disciplina.
Em bloco ou misturadas?
As duas formas têm seu momento:
| Situação | Formato | Por quê |
|---|---|---|
| Logo depois da teoria | Questões do mesmo assunto, em bloco | Fixar a regra recém-estudada |
| Revisão (dias 3 e 7) | Assuntos misturados da mesma disciplina | Treinar a identificar qual regra se aplica |
| Fim de semana | Simulado com disciplinas misturadas | Reproduzir a prova real |
Misturar tipos de problema é chamado de prática intercalada. Em um experimento com matemática, Rohrer e Taylor (2007) observaram desempenho muito superior, uma semana depois, no grupo que praticou com problemas misturados em comparação ao grupo que praticou em blocos. Em outro estudo, Kornell e Bjork (2008) mostraram que alternar exemplos de categorias diferentes ajudou a aprender a distingui-las, embora os participantes achassem que o formato em bloco era melhor. Misturar parece mais difícil e por isso dá a falsa impressão de que rende menos.
Quantas questões fazer por dia
Não há número certo. Um ponto de partida comum para quem estuda duas horas por dia é algo entre 30 e 60 questões, com correção. Mais importante que o número:
- Taxa de acerto por assunto. Acompanhe semanalmente.
- Tempo por questão. Perto da prova, treine no ritmo que a prova exige: divida o tempo total pelo número de questões e reserve uma parte para marcar a folha.
- Erros reincidentes. Se o mesmo erro volta, o problema é de base. Volte à teoria daquele ponto.
Erros comuns ao resolver questões
- Fazer só para ver a nota. Sem correção, a questão vira passatempo.
- Ler o comentário antes de tentar. Tente sempre responder sozinho primeiro; o esforço de recuperar é o que fixa.
- Fugir das questões difíceis. Elas mostram exatamente o que falta.
- Ignorar a lei atualizada. Gabarito de prova antiga pode estar superado por mudança na lei.
Perguntas frequentes
Quando devo começar a fazer questões?
Desde a primeira semana. Faça algumas antes da teoria, para saber o que a banca pergunta, e muitas logo depois, para fixar.
É melhor fazer questões comentadas?
Comentários ajudam a entender o erro, mas leia só depois de tentar. Para confirmar o fundamento, vá à lei ou à sua fonte de teoria, não apenas ao comentário.
Posso usar questões de outras bancas?
Pode, para ganhar volume e variedade. Mas priorize a banca da sua carreira, porque cada uma tem estilo, vocabulário e assuntos preferidos.
Devo refazer questões que já resolvi?
Sim, principalmente as que errou. Refazer depois de alguns dias é uma forma de revisão espaçada. Se lembra o gabarito de cara, troque por questões novas do mesmo assunto.
Quantas questões preciso fazer até a prova?
Não há número garantido. Acompanhe a taxa de acerto nos assuntos de maior peso; quando ela se estabiliza em nível alto, aumente a dificuldade e passe para simulados completos.
Fontes
- Roediger, H. L., & Karpicke, J. D. (2006). Test-enhanced learning: Taking memory tests improves long-term retention. Psychological Science, 17(3), 249–255.
- Karpicke, J. D., & Blunt, J. R. (2011). Retrieval practice produces more learning than elaborative studying with concept mapping. Science, 331(6018), 772–775.
- Richland, L. E., Kornell, N., & Kao, L. S. (2009). The pretesting effect: Do unsuccessful retrieval attempts enhance learning? Journal of Experimental Psychology: Applied, 15(3), 243–257.
- Rohrer, D., & Taylor, K. (2007). The shuffling of mathematics problems improves learning. Instructional Science, 35(6), 481–498.
- Kornell, N., & Bjork, R. A. (2008). Learning concepts and categories: Is spacing the "enemy of induction"? Psychological Science, 19(6), 585–592.
- Dunlosky, J., Rawson, K. A., Marsh, E. J., Nathan, M. J., & Willingham, D. T. (2013). Improving students' learning with effective learning techniques. Psychological Science in the Public Interest, 14(1), 4–58.
- Código Penal (Decreto-Lei nº 2.848/1940), texto compilado, Planalto.