Língua PortuguesaCoesão referencial: anáfora e catáforaFLEM Concursos 2023
UNEB
Questão de Língua Portuguesa
Parece não haver mais dúvidas quanto ao mal-estar da civilização na atualidade, pelo menos, do ponto de vista de considerável parcela da população mundial acometida de problemas de toda espécie: 5 fome e desnutrição, desemprego, doenças crônicas e infecciosas, conflitos armados, desastres ambientais e outras formas de geração de indigências. Só para dar um exemplo desse mal-estar, segundo a FAO (órgão da ONU para alimentação), cerca de seis milhões 10 de crianças menores de cinco anos e mais outros três milhões de pessoas morrem, todos os anos, em consequência da fome. Portanto, entre aqueles que exercem alguma forma de ativismo socioambiental, já é mais do que consenso a sensação de que vivemos 15 tempos muito incômodos e perigosamente sombrios, sob os mais diversos aspectos da experiência humana: institucional, social, econômica, ética, espiritual e, notadamente, no que diz respeito às mudanças climáticas e às questões de natureza 20 política. Por um lado, conforme já amplamente comprovado pelas ciências da Terra, as mudanças do clima ameaçam seriamente as condições de manutenção da biodiversidade, da qual depende a vida do nosso planeta, o que já está nos colocando em 25 situação de extrema vulnerabilidade, especialmente o enorme contingente de excluídos gerado pela visão econômica de mundo, representada pelo atual sistema capitalista hegemônico de cunho neoliberal. De outro, observamos, nas últimas décadas, um 30 crescente enfraquecimento dos Estados e uma permanente instabilidade da ordem política mundial. O momento pelo qual passa a humanidade é de extrema gravidade e, portanto, as possibilidades de profundas regressões, de barbárie e até mesmo de 35 um colapso civilizatório em longo prazo já começam a permear algumas análises sobre conjuntura global. Como bem disse dom Paulo Evaristo Arns, ex-arcebispo emérito de São Paulo, na carta lida por ocasião do seminário que debateu na Rio+20, em 40 junho de 2012, “mais do que uma crise ambiental enfrentamos uma crise civilizatória. Uma crise de valores sem precedentes na nossa civilização. Se exaure a natureza, assim, se exaure o homem, que são partes indissociáveis”. Esse mal-estar também é 45 alimentado pela sensação de ausência de um projeto civilizatório. Há um vazio de ideias e ações que marca os tempos atuais, como bem expressou recentemente o sociólogo francês Alain Touraine, em entrevista ao El País, em 28/03/2020, sobre a conjuntura da crise 50 gerada pela pandemia do coronavírus: “hoje, não há nem atores sociais, nem políticos, nem mundiais, nem nacionais, nem de classe. Por isso, o que ocorre é totalmente o contrário de uma guerra, com uma máquina biológica de um lado e, do outro, pessoas e 55 grupos sem ideias, sem direção, sem programa, sem estratégia, sem linguagem. É o silêncio.” Ao que parece, os entendimentos acerca da origem desse mal-estar civilizacional ainda estão muito dispersos, o que dificulta bastante a busca 60 de consensos e a convergência de propostas e ações, por isso a necessidade, mais que urgente, de religarmos saberes e reformarmos o pensamento que o sociólogo, antropólogo e filósofo francês Edgar Morin e outros, há tempos, nos alertam. No fundo, 65 essa dissonância cognitiva tem a ver com a nossa dificuldade de aprendizagem com os inúmeros fatos negativos vivenciados ao longo da história. O filósofo britânico John Gray resumiu bem essa nossa condição: “se existe algo de único no animal humano é que ele 70 tem a capacidade de aumentar seu conhecimento em ritmo acelerado, mas é cronicamente incapaz de aprender com a experiência”. Há várias perspectivas para se observar esse cenário de crise civilizatória e todas elas, em maior 75 ou menor grau, devem ter sua validade e pertinência para compreender e explicar essa condição do nosso tempo atual. Nesse sentido, parece haver três grandes impasses civilizacionais a serem enfrentados pela humanidade nos próximos tempos: visão de 80 mundo, mudanças climáticas e metamorfose, os quais partem do pressuposto de que as ideias centrais que permeiam cada um desses impasses são, respectivamente, o ego, o antropoceno e o acaso. Na verdade, tais impasses é uma grande 85 crise existencial do nosso tempo, os quais estão intimamente implicados e que, portanto, sua solução demandará, talvez, o maior esforço que a humanidade já enfrentou no curso de sua longa história. A proposta então é refletir acerca desses três grandes impasses 90 civilizacionais e tentar mostrar a interdependência que há entre eles, e, assim, oferecer alguma luz, pelo menos, para tentarmos entender e melhor lidar com esse mal-estar que inquieta a humanidade, já que a sua superação ainda parece muito distante. RIOS NETO, Antônio Sales. Impasses civilizacionais. Disponível em: <https://aterraeredonda.com.br/impasses-civilizacionais>. Acesso em: 8 dez. 2022. Adaptado. Língua Portuguesa - Literatura Brasileira | 1
Marque V ou F, conforme sejam verdadeiras ou falsas as afirmativas sobre os recursos linguísticos usados no texto. ( ) Em “Parece não haver mais dúvidas” (l. 1) e em “cerca de seis milhões de crianças menores de cinco anos e mais outros três milhões” (l. 9-11), o vocábulo “mais”, nas duas situações, detém, semanticamente, ideia de adição. ( ) Em “especialmente o enorme contingente de excluídos gerado pela visão econômica de mundo, representada pelo atual sistema capitalista” (l. 25-28), as preposições “pela” e “pelo” exercem o mesmo sentido semântico. ( ) Em “Como bem disse dom Paulo Evaristo Arns” (l. 37) e em "como bem expressou recentemente o sociólogo francês Alain Touraine” (l. 47-48), “como” expressa, nas duas passagens, ideia de consonância. ( ) Em “Há um vazio de ideias e ações” (l. 46) e em “Edgar Morin e outros, há tempos, nos alertam.” (l. 63-64), a forma verbal “há”, nas duas passagens destacadas, poderia ser substituída por “existe” sem que haja prejuízos de ordem morfológica ou sintática. Língua Portuguesa - Literatura Brasileira | 2 ( ) Em “O filósofo britânico John Gray resumiu bem essa nossa condição” (l. 67-68), o pronome “essa” é um marcador anafórico que faz referência à “busca de consensos e a convergência de propostas” (l. 59-60). A alternativa que contém a sequência correta, de cima para baixo, é a
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.


