Língua PortuguesaElementos da narrativa e foco narrativoCOPEPS UEMG 2015
UEMG
Questão de Língua Portuguesa
Touradas Mais dia menos dia, demito-me deste lugar. Um historiador de quinzena, que passa os dias no fundo de um gabinete escuro e solitário, que não vai às touradas, às câmaras, à Rua do Ouvidor, um historiador assim é um puro contador de histórias. E repare o leitor como a língua portuguesa é engenhosa. Um contador de histórias é justamente o contrário de um historiador, não sendo um historiador, afinal de contas, mais do que um contador de histórias. Por que essa diferença? Simples, leitor, nada mais simples. O historiador foi inventado por ti, homem culto, letrado, humanista; o contador de histórias foi inventado pelo povo, que nunca leu Tito Lívio, e entende que contar o que se passou é só fantasiar. O certo é que se eu quiser dar uma descrição verídica da tourada de domingo passado, não poderei, porque não a vi. Não sei se já disse alguma vez que prefiro comer o boi a vê-lo na praça. Não sou homem de touradas; e se é preciso dizer tudo, detesto-as. Um amigo costuma dizer- me: — Mas já as viste? — Nunca! — E julgas do que nunca viste? Respondo a este amigo, lógico mas inadvertido, que eu não preciso ver a guerra para detestála, que nunca fui ao xilindró, e todavia não o estimo. Há coisas que se prejulgam, e as touradas estão nesse caso. E querem saber por que detesto as touradas? Pensam que é por causa do homem? Ixe! é por causa do boi, unicamente do boi. Eu sou sócio (sentimentalmente falando) de todas as sociedades protetoras dos animais. O primeiro homem que se lembrou de criar uma sociedade protetora dos animais lavrou um grande tento em favor da humanidade; mostrou que este galo sem penas de Platão pode comer os outros galos seus colegas, mas não os quer afligir nem mortificar. (...) Touradas e caridade pareciam ser duas coisas pouco compatíveis. Pois não o foram esta semana última; fez-se uma corrida de touros com o fim de beneficiar necessitados. O pessoal era de amadores, uns já peritos; outros novos; mas galhardos todos, e moços de fino trato. A concorrência, se não foi extraordinária, foi assim bastante numerosa. E não a censuro, não; a caridade fazia dispensar a feroci... não digo ferocidade; mas contarei uma pequena anedota. Conversava eu há dias com um amigo, grande amador de touradas, e homem de espírito, s’il en fut. — Não imagines que são touradas como as de Espanha. As de Espanha são bárbaras, cruéis. Estas não têm nada disso. — E entretanto... 5 — Assim, por exemplo, nas corridas de Espanha é uso matar o touro... Nesta não se mata o touro; irrita-se, ataca-se, esquiva-se, mas não se mata... — Ah! Na Espanha, mata-se? — Mata-se... E isso é que é bonito! Isso é que é comoção!... Entenderam a chave da anedota? No fundo de cada amador de tourada inocente, há um amador de tourada espanhola. Começa-se por gostar de ver irritar o touro, e acaba-se gostando de o ver matar. Repito: eu gosto simplesmente de o comer. É mais humano e mais higiênico. ASSIS, Machado de. Crônicas escolhidas. São Paulo: Ática, 1997, p. 55-57.
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No desfecho do texto, ao afirmar que comer o touro é mais humano do que irritá-lo e gostar de o ver matar, o narrador
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.


