Língua PortuguesaElementos da narrativa e foco narrativoAMEOSC 2026
Pref Sta Helena (SC)
Questão de Língua Portuguesa
O menino nisei sentou no banco do jardim. Teria uns 11 anos, comia sossegado o seu sanduíche de queijo. Duas menininhas, uma morena outra ruiva, que pulavam amarelinha, chegaram junto dele e gritaram: — Japonês! Japonês! Você quer dizer as horas pra nós? O menino olhou o pulso, disse que eram nove e meia e acrescentou: — Eu não sou japonês. Sou paulistano, nasci aqui, no Jardim América. A ruivinha, mais velha, coçou um borrachudo na canela fina: — Se você não é japonês, teu pai é. — Não, meu pai nasceu em Batatais. — Então tua mãe. — Ela também nasceu em Batatais. A menor, moreninha, fez o comentário óbvio: — Nós te chamou japonês porque tu tem cara de japonês. — Meu avô é que era japonês. E a minha avó. E acho que os meus tios. — Só eles? — Só. A pequenininha estava maravilhada com aquele milagre biológico: — Nunca vi pessoa ser brasileiro e ter cara de japonês. Eu pensava que brasileiro era tudo igual. A maior ensinou: — Nem todo brasileiro é igual. Negro é brasileiro e é diferente. — Negro é africano, observou, com certa malícia, o que chamavam de japonês. — Como é que você sabe? — Aprendi na aula. — Na minha rua tem muito judeu. Nós tudos somos judeu, contribuiu a ruiva. — E onde é a terra de judeu, quis saber a outra. — Meu pai veio da Rússia. E o meu avô. A minha mãe veio da Polônia. — Então esse negócio de judeu é besteira. Quem vem da Rússia é russo. E na Polônia dá é polaco. — O menino falava com grande autoridade. — A minha mãe disse que a gente fala polonês. Polaco é feio. — Pode ser. Polonês. Mas judeu? A moreninha interveio: — Judeu vem da Judia. Não tem país chamado Judia, doutrinou o nisei. — Como é que você sabe? Você conhece todos os países do mundo? — Todos. Estou no curso de admissão. Já dei na geografia. — Meu pai diz que a terra dos judeus se chama Israel, lembrou então a ruiva. — Então como é que ele é da Rússia? Mistério. Os três se entreolharam. Afinal o rapaz sugeriu: — Só se é mentira do teu pai. — Mentira do teu! Teu pai é que é um japonês mentiroso! — Já falei que o meu pai é brasileiro. A outra menina pacificou: Não xingue. Eu também sou brasileira. Eu nasci em Campos. E minha mãe nasceu em Campos, e o meu irmão, e o meu pai, todo o mundo na minha casa nasceu em Campos. A ruiva riu: — Tudo é campeiro? — Não, a gente diz é campista. Campos fica no estado do Rio de Janeiro. — Agora lá se chama Guanabara, sentenciou o menino. — Não, não é Guanabara. Estado do Rio é outra coisa. — Então tem dois Rio? — Não, agora só tem um. Não falei que o Rio de Janeiro virou Guanabara? Também diz Velhacap. A menina ruiva ficou a olhar um momento os dois outros: — Acho que campista também parece com japonês. Só não tem o olho arrebitado. — Minha mãe diz que nós temos sangue de índio, contribuiu a campista. E o paulistano contou: — Meu pai uma vez viu um índio e pensou que fosse japonês fantasiado. Falou para ele em língua de japonês, mas o índio não entendeu nada. — Mas você não disse que seu pai é de Batatais? — É. Mas filho de japonês sabe falar a língua do pai. — E você sabe? Fala um pouquinho pra gente ver. 6 — Não sei. Puxa, já disse tanta vez que sou paulistano! A moreninha deu um salto: — Pois eu sou é Corinthians! — Ninguém está conversando futebol, boba. Houve um silêncio. A menina menor indagou então: — E onde é o lugar onde só tem brasileiro? Os outros dois ficaram um tempo pensando, olhando uns pombos que bicavam na areia. Afinal a menina maior falou: — Gente grande é muito misturado. Acho que deve ser no lugar onde só tem criança. https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/19087/nacionalidade
O desfecho da narrativa desloca a discussão das crianças para uma questão mais ampla sobre identidade e pertencimento. Depois de várias tentativas de estabelecer diferenças entre brasileiros a partir de suas origens, características físicas e referências culturais, surge uma pergunta que retoma o problema apresentado desde o início. Assinale a alternativa que interpreta o sentido do desfecho da narrativa.
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

