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Questões de Língua Portuguesa · CMRJ

Língua PortuguesaElementos da narrativa e foco narrativoCMRJ 2007

CMRJ

Questão de Língua Portuguesa

Um elefante incomoda muita gente Sylvia Orthof 1 Um elefante, às vezes, incomoda muita gente. Nunca tive um elefante, pelo motivo único de que nunca ninguém me deu um elefante de presente quando eu era criança. Mesmo assim, um elefante morou, durante algum tempo, perto de nossa casa. Isso aconteceu em Petrópolis. Meus pais viviam mudando de casa, era ótimo! Um dia 5 a gente morava aqui, outro dia já era em outro lugar. Nem precisava viajar, era só esperar papai dizer pra mamãe: — Vamos mudar, achei um lugar lindo! Fomos para Petrópolis. Nossa casa ficava na Estrada da Saudade. Ficava no alto de um morro, de onde a gente via, ao longe, uma fábrica, outro morro, um rio. Lá embaixo ficava 10 o cinema. Perto do cinema, um dia, tinha que ser um dia azul, com nuvens brancas, vento suave, sol quase cor-de-rosa, tinha que ser num dia assim em que começaram a limpar um terreno, perto do cinema. — O que é que vai ter aqui? — perguntei para um homem baixinho que carregava 15 umas lonas. — Adivinha o que é: tem teto mas não é casa, tem porta mas não tem trinco, de dia eu durmo, de noite eu brinco? O homenzinho ficou me olhando, com seus olhos muito azuis. — Tem teto mas não é casa... é automóvel? — perguntei. 20 — Tem porta mas não tem trinco... automóvel tem trinco, não tem? — Tem... — respondi. — É um circo, menina! De dia eu durmo, de noite eu brinco de palhaço! — disse o homem dando um salto mortal, em que rodopiou duas vezes no ar, antes de ficar de pé de novo, rindo. 25 — O senhor é um palhaço? — perguntei. Não achei que fosse, porque ele não tinha um nariz redondo, como os palhaços costumam ter, e sua cara era cor de pele, não era branca alvaiade. — Sou palhaço, sim. Além disso, carrego tralhas, monto o circo, desmonto, faço publicidade, uf, puf! — respondeu o homem, desta vez estendendo a lona de cabeça pra baixo, pernas pra cima, andando sobre a mão direita. Que maravilha! O circo foi montado. Era um circo verde, desbotado, todo enfeitado de remendos. Tinha remendos azuis, tinha vermelhos listrados de amarelo, e tinha até remendos da mesma cor desbotada do circo. Uma beleza! O circo era pobre, mas tinha uma riqueza que muito circo rico não tem: tinha o que eu 35 nunca tive. Pois é, o circo tinha um elefante! — Este elefante eu herdei de minha bisavó trapezista, no dia em que ela morreu de tanto rir de uma piada que eu contei! — explicava o palhaço Farofa quando apresentava o elefante, antes do grande número. O grande número era uma maravilha: o palhaço, vestido com uma roupa de bolas, gola 40 enorme, peruca careca, nariz de bola e cara pintada de alvaiade (ele era palhaço mesmo, só não se vestia de palhaço quando era pra armar o circo), dava piruetas na tromba do elefante, que tocava uma gaita, enorme, elefantástica. Eu nunca tinha visto um elefante que fosse capaz de tocar, inteirinho, o Hino da Independência dos Países Não Independentes do Golfo Pérsico. Mas aquele elefante tocava, sem errar uma nota! Também se errasse, só quem conhecesse o hino é que ia notar, não é mesmo? Ninguém conhecia o hino, mas todo mundo se admirava, até o elefante! Um dia Farofa, o palhaço, estava muito preocupado. O elefante estava sem fazer cocô há mais de três dias. Era um problema muito grave, pois aquilo nunca tinha acontecido. O elefante era muito pontual: comia às cinco horas da tarde e às sete e trinta e cinco minutos, 50 diariamente, fazia seu cocô, antes de entrar em cena, às nove horas da noite. O elefante era tão treinado que aos sábados e domingos, dias de espetáculo à tarde, ele mudava seu fuso horário, organizando-se para efetuar o serviço logo depois do café da manhã, lá pelas nove e vinte e oito minutos. Mas isso só acontecia aos sábados e domingos, pois era um elefante circense, domado, treinado e com alto sentido profissional. Farofa, preocupadíssimo com a 55 prisão de ventre do elefante, foi à farmácia comprar cento e vinte e três vidros de purgante, que é dose de elefante, claro! Passaram-se mais três dias, o elefante tomou o purgante e... nada! Aí Farofa foi na farmácia e comprou chá de comigo-ninguém-segura, que, dizem, é um santo remédio. Quem ensinou foi uma velha que trabalhava na fábrica, aquela que ficava 60 perto do morro, não a velha, mas a fábrica que ficava perto do morro, a velha só trabalhava na fábrica que ficava perto do morro. A velha era parteira, entendia do assunto de botar pra fora, entendia dos milagres da vida. — Seu Farofa, é só multiplicar por cento e cinqüenta o número da xícara que costumo dar pra quem não consegue botar pra fora o que precisa sair, compreendeu? — perguntou a 65 velha, muito delicada, escolhendo as palavras com cuidado, pois era uma senhora fina e educada. Evitava dizer a palavra "cocô", pois era velha, achava que ficava melhor dizer "botar pra fora", assim, sem usar a palavra chocante. Farofa deu cento e cinqüenta xícaras de chá de comigo-ninguém-segura. Passaram-se três dias, o elefante inchadão, com olheiras, e nada de resolver! 70 Quando chegou a hora do elefante tocar o hino, o som nem sempre saía pela tromba, era um pouco vergonhoso, sobretudo num palco. Aí, a velha senhora disse: — Se não resolveu com o purgante, se não resolveu com o chá, o único jeito é dar uma lavagem neste pobre bichinho, coitadinho, tão inchadinho, com este problemão 75 elefântico! — E como é que a gente vai dar uma lavagem intestinal neste bicho tão grande? — É muito simples. Meu sobrinho trabalha numa bomba de gasolina. A gente vai lá, leva o bichinho, em vez de botar gasolina no tanque do elefante, a gente bota água, lá pelo... pelo... fiofó dele. 80 — A gente vai encher o elefante de água pelo fiofó dele, igual a gente enche o tanque de um caminhão? — Igual, só que não é com gasolina, é com água! Lá se foi Farofa puxando o elefante por uma cordinha, seguido da velha, que, não sei por qual motivo, levava um saco cheio de papel higiênico, pra qualquer necessidade. O 85 elefante dava três passos, parava, cansado, inchado, olheiras que iam do olho do elefante até o outro lado, coitadão! Também, ele já estava sem resolver seu problema há mais de nove dias! Chegaram na bomba de gasolina. Tiveram sorte. Não tinha gasolina na bomba. Aí a velha explicou o problema pro sobrinho, encheram a bomba com setenta litros de água e 90 pediram ao elefante que fizesse a gentileza de encostar o fiofó bem junto na bomba, que era coisa simples, coisa de lavagem intestinal. O elefante, coitado, muito acostumado a obedecer, obedeceu. Começaram a encher o elefante de água, pelos fundos dele. A bomba marcava: dez litros, vinte litros, trinta e dois litros, quarenta e sete litros, cinqüenta e cinco litros... e o elefante inchando, inchando, até que botaram setenta litros, e... nada! 95 — Melhor dobrar a dose, pois setenta litros é pouco litro para tanto elefante! — disse o sobrinho. Dobraram a dose e... nada! O elefante começou a querer desmaiar. Balança pra lá, balança pra cá, de repente ouviu-se um barulho igual ao barulho da pororoca do rio Amazonas. Parece que era o encontro das águas com o esterco, lá dentro do 100 elefante. Todo mundo saiu correndo, o elefante aflito chegou a falar português, coisa que nenhum elefante faz, mas era um elefante amestrado, falou com uma voz fininha, cheia de aflição: — Por favor, os senhores poderiam me informar onde fica... onde fica... o banheiro? Todo mundo ficou de boca aberta. Imagine, um elefante que fala! Não deu tempo de responder. Coitado do elefante! Coitado do posto de gasolina! 105 De vez em quando, como eu disse no início desta história, um elefante incomoda muita gente. Não sei se esta história aconteceu mesmo. Quem me contou foi Farofa, o palhaço. Palhaço inventa cada uma!

A partir do que você leu no trecho das linhas (98-102), assinale a afirmativa que contém o motivo que levou todos a correrem.

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