Concordância verbal para concursos: regras, casos especiais e itens comentados

Concordância verbal sem sustos: como achar o sujeito, haver e fazer impessoais, voz passiva com "se", "a maioria de" e itens no estilo Cebraspe com gabarito.

Equipe KumuAtualizado em 7 min de leitura

Concordância verbal é a regra que manda o verbo concordar em número (singular ou plural) e pessoa (eu, tu, ele...) com o núcleo do sujeito. A regra é simples; o que derruba candidato é achar o sujeito quando ele está longe do verbo, depois do verbo ou disfarçado, e lembrar os poucos verbos que não têm sujeito. Este guia cobre exatamente esses pontos, que são os que a banca cobra.

O assunto está nos editais policiais. No edital da Polícia Federal de 2025 (Cebraspe), o conteúdo de Língua Portuguesa lista "5.5 Concordância verbal e nominal".

Regra geral e o método para achar o sujeito

O verbo concorda com o núcleo do sujeito, e não com a palavra que está mais perto dele. Para achar o núcleo, pergunte ao verbo "quem?" ou "o quê?" e isole a palavra principal da resposta.

  • "A apuração dos fatos narrados pelas testemunhas levou meses." O que levou meses? A apuração. Núcleo no singular, verbo no singular, apesar de "testemunhas" estar colada ao verbo.
  • "Faltaram à prova três candidatos do turno da manhã." Quem faltou? Três candidatos. O sujeito está depois do verbo, mas continua mandando.

O Cebraspe adora esses dois disfarces: sujeito longo, com um termo no plural entre o núcleo e o verbo, e sujeito posposto, colocado depois do verbo.

Sujeito composto

SituaçãoRegraExemplo
Antes do verboPluralO delegado e o escrivão chegaram.
Depois do verboPlural ou concordância com o núcleo mais próximoChegaram o delegado e o escrivão. / Chegou o delegado e o escrivão.
Núcleos ligados por "ou" com ideia de exclusãoSingularPedro ou João será o novo chefe da equipe.
Núcleos ligados por "ou" sem exclusãoPluralCalor ou frio não atrapalham o treino.
Pessoas gramaticais diferentesPrevalece a 1ª sobre a 2ª e a 3ª; a 2ª sobre a 3ªEu e você estudaremos juntos.

Verbos impessoais: o ponto que mais cai

Alguns verbos não têm sujeito e por isso ficam sempre na 3ª pessoa do singular.

Haver no sentido de existir, acontecer ou de tempo decorrido:

  • "Houve muitos recursos contra o gabarito." (e não "houveram")
  • "Havia dois suspeitos no veículo."
  • "O crime ocorreu há cinco anos."

Fazer indicando tempo decorrido ou fenômeno da natureza:

  • "Faz dez anos que o concurso não abre vagas."
  • "Fez 40 graus durante o teste físico."

O detalhe que a banca explora: quando o verbo impessoal está em uma locução, o auxiliar também fica no singular. "Deve haver soluções", "Vai fazer dois anos". Escrever "devem haver" é erro.

Atenção à diferença: existir, ocorrer e acontecer têm sujeito e concordam com ele. "Existem soluções", "Devem existir soluções", "Ocorreram falhas". A troca de "haver" por "existir" é um item clássico de reescrita: "Havia problemas" vira "Existiam problemas", com o verbo indo para o plural.

Verbo com "se": voz passiva ou sujeito indeterminado?

Aqui está outro campeão de prova. O segredo é olhar a regência do verbo.

Tipo de verboFunção do "se"ConcordânciaExemplo
Transitivo direto (pede objeto sem preposição)Partícula apassivadora (voz passiva sintética)Concorda com o sujeito pacienteApreenderam-se drogas e armas. Alugam-se salas.
Transitivo indireto, intransitivo ou de ligaçãoÍndice de indeterminação do sujeitoSempre no singularPrecisa-se de agentes. Trata-se de casos graves.

Teste prático: transforme em voz passiva analítica. "Apreenderam-se drogas" vira "Drogas foram apreendidas": deu certo, então "drogas" é sujeito e o verbo concorda com ele. "Precisa-se de agentes" não vira "agentes são precisados de": não há sujeito, o verbo fica no singular.

Casos especiais que aparecem nas provas

CasoRegraExemplo
Coletivo no singularSingularA equipe chegou cedo.
"A maioria de", "grande parte de", "a metade de" + pluralSingular ou pluralA maioria dos candidatos faltou. / A maioria dos candidatos faltaram.
"Mais de um"Singular (plural se houver reciprocidade ou repetição)Mais de um agente foi ferido.
"Um dos que"Plural é o mais usado; há gramáticos que aceitam o singularEle é um dos que mais estudaram.
Porcentagem + especificadorConcorda com o número ou com o especificador30% do efetivo estava de folga. / 30% do efetivo estavam de folga.
Pronome relativo "que"Concorda com o antecedenteFui eu que redigi o relatório.
Pronome relativo "quem"3ª pessoa do singular ou concordância com o antecedenteFui eu quem redigiu. / Fui eu quem redigi.
"A gente"SingularA gente chegou cedo.

O verbo ser

O verbo "ser" tem regras próprias. Na indicação de horas, datas e distâncias, ele concorda com o numeral: "São três horas", "É uma hora", "Daqui à base são dez quilômetros". Nas datas, há duas formas: "Hoje são 4 de outubro" (concordando com "dias", subentendido) e "Hoje é dia 4 de outubro".

Como a banca cobra

No Cebraspe, concordância aparece quase sempre em itens de reescrita: "a substituição de X por Y manteria a correção gramatical do texto" ou "a forma verbal X poderia ser flexionada no plural". Quatro itens escritos por nós, no estilo da banca.

Item 1 (no estilo da banca). Estaria gramaticalmente correta a frase "Haviam muitas denúncias anônimas sobre o ponto de venda de drogas".

Gabarito: errado. "Haver" no sentido de existir é impessoal e fica no singular: "Havia muitas denúncias". Se o verbo fosse trocado por "existir", aí sim o plural seria obrigatório: "Existiam muitas denúncias".

Item 2 (no estilo da banca). No período "Divulgaram-se os resultados da prova objetiva", a substituição de "Divulgaram-se" por "Divulgou-se" manteria a correção gramatical.

Gabarito: errado. "Divulgar" é transitivo direto, e o "se" é partícula apassivadora. "Os resultados" é o sujeito paciente (os resultados foram divulgados), e o verbo precisa ficar no plural.

Item 3 (no estilo da banca). Em "A maioria dos aprovados tomou posse em janeiro", a forma verbal "tomou" poderia ser substituída por "tomaram", sem prejuízo da correção gramatical.

Gabarito: certo. Com expressões partitivas como "a maioria de" seguidas de plural, a norma-padrão admite o verbo no singular (concordando com "maioria") ou no plural (concordando com "aprovados").

Item 4 (no estilo da banca). A frase "Precisam-se de policiais para o reforço da fronteira" está de acordo com a norma-padrão.

Gabarito: errado. "Precisar de" é transitivo indireto; o "se" é índice de indeterminação do sujeito, e o verbo fica no singular: "Precisa-se de policiais".

Roteiro de estudo

  1. Treine achar o sujeito em frases longas antes de decorar casos especiais. Isso resolve a maior parte dos itens.
  2. Decore a dupla haver/existir e a regra do auxiliar nas locuções.
  3. Domine a diferença entre "se" apassivador e "se" indeterminador pela regência do verbo.
  4. Resolva itens de reescrita. Concordância raramente vem sozinha: ela aparece misturada com regência, crase e pontuação. Treine com questões oficiais e revise as regras de crase e de vírgula, que caem no mesmo tipo de item.

Para descobrir em que ponto do Português você está mais fraco, use a lista de o que mais cai como roteiro e marque o que já domina.

Perguntas frequentes

"Houveram" está errado?

Quando "haver" significa existir, acontecer ou indica tempo decorrido, sim: o verbo é impessoal e fica no singular ("houve problemas"). "Houveram" só aparece como auxiliar em tempos compostos, em que "haver" equivale a "ter": "eles houveram saído", construção rara hoje.

"Faz dez anos" ou "fazem dez anos"?

"Faz dez anos". O verbo "fazer" indicando tempo decorrido é impessoal e fica no singular, inclusive como auxiliar em locução: "vai fazer dez anos".

"Vende-se casas" é correto?

Não, pela norma-padrão. "Vender" é transitivo direto, o "se" é partícula apassivadora e "casas" é o sujeito. O correto é "vendem-se casas" (casas são vendidas).

Com "a maioria dos", o verbo vai para o singular ou para o plural?

As duas formas são aceitas pela norma-padrão: "a maioria dos candidatos faltou" e "a maioria dos candidatos faltaram". Itens que dizem que só uma delas está correta costumam estar errados.

Como saber se o "se" é apassivador?

Veja a regência do verbo. Se ele é transitivo direto e a frase pode virar voz passiva com "ser" (salas são alugadas), o "se" é apassivador e o verbo concorda com o sujeito. Se o verbo pede preposição (precisar de, tratar de), o "se" indetermina o sujeito e o verbo fica no singular.

Fontes

Guia da carreira: Polícia Federal: Agente · Polícia Federal: Escrivão

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