Língua PortuguesaElementos da narrativa e foco narrativoIAN 2016
CM Miguel Pereira
Questão de Língua Portuguesa
Quando a filha adolescente anunciou que ia dormir com o namorado, o pai não disse nada. Não a recriminou, não lembrou os rígidos padrões morais de sua antiga juventude. Homem avançado, já esperava que aquilo acontecesse um dia. Só não esperava que acontecesse tão cedo. Mas tinha uma exigência, além das clássicas recomendações. A moça podia dormir com o namorado: Mas aqui em casa. Ela, por sua vez, não protestou. Até ficou contente. Aquilo resultava em inesperada comodidade. Vida amorosa em domicílio, o que mais podia desejar? Perfeito. O namorado não se mostrou menos satisfeito. Entre outras razões, porque passaria a partilhar o abundante café da manhã da família. Aliás, seu apetite era espantoso: diante do olhar assombrado e melancólico do dono da casa, devorava toneladas do melhor requeijão, do mais fino presunto, tudo regado a litros de suco de laranja. Um dia, o namorado sumiu. Brigamos, disse a filha, mas já estou saindo com outro. O pai pediu que ela trouxesse o rapaz. Veio, e era muito parecido com o anterior: magro, cabeludo, com apetite descomunal. Brevemente, o homem descobriria que constância não era uma característica fundamental de sua filha. Os namorados começaram a se suceder em ritmo acelerado. Cada manhã de domingo, era uma nova surpresa: este é o Rodrigo, este é o James, este é o Tato, este é o Cabeça. Lá pelas tantas, ele desistiu de memorizar nomes ou mesmo fisionomias. Se estava na mesa do café da manhã, era namorado. Às vezes, também acontecia ah, essa próstata, essa próstata que ele levantava à noite para ir ao banheiro e cruzava com um dos galãs no corredor. Encontro insólito, mas os cumprimentos eram sempre gentis. Uma noite, acordou, como de costume, e, no corredor, deu de cara com um rapaz que o olhou apavorado. Tranquilizou-o: Eu sou o pai da Melissa. Não se preocupe, fique à vontade. Faça de conta que a casa é sua. E foi deitar. Na manhã seguinte, a filha desceu para tomar café. Sozinha. E o rapaz? perguntou o pai. Que rapaz? disse ela. Algo lhe ocorreu, e ele, nervoso, pôs-se de imediato a checar a casa. Faltava o CD player, a máquina fotográfica, a impressora do computador. O namorado não era namorado. Paixão poderia nutrir, mas era pela propriedade alheia. Um único consolo restou ao perplexo pai: aquele, pelo menos, não fizera estrago no café da manhã. (Moacyr Scliar. Crônica extraída da Revista Zero Hora, 26/4/1998)
Assinale a alternativa que indica o clímax do texto.
Mais questões de Elementos da narrativa e foco narrativo
- AMEOSC 2026O desfecho da narrativa desloca a discussão das crianças para uma questão mais ampla sobre identidade e pertencimento. Depois de várias tentativas de estabelecer diferenças entre…
- Vunesp 2026Em determinado momento do trecho, o narrador abandona o tom mais objetivo e assume um registro mais emocional, como se verifica em:
- Avança SP 2026Em relação ao texto “(In)diferença”, é correto afirmar que ele se estrutura:
- Avança SP 2026O texto “Simplicidade” é apresentado em:
- Avança SP 2026Quem é o narrador do texto “Caçando discos-voadores”?
Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

