Questões de Língua Portuguesa · CMRJ

Língua PortuguesaRegênciaCMRJ 2008

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Questão de Língua Portuguesa

Texto 1 Por Contardo Calligaris A pesquisa de hoje mostra a mesma coisa que, aparentemente, descobrimos a cada vez que sondamos os adolescentes: eles são tão caretas quanto a gente, se não mais. Eles se preocupam sobretudo com família, saúde, trabalho e estudo. Seu maior sonho é a realização profissional — não empreendimentos fantasiosos, mas o devaneio de qualquer mãe de classe média: ser médico, advogado ou encontrar um bom emprego que lhes garanta casa própria e carro. Em matéria de política, a maioria se posiciona à direita ou ao centro e não tem interesse em participar de movimentos sociais. Eles têm opiniões parecidas com as da média nacional: são contra a legalização do aborto, contra a descriminalização da maconha e a favor da diminuição da maioridade penal. Sobre a pena de morte, estão divididos meio a meio. Não são aventurosos: têm pouca vontade de viajar e estão preocupados com a violência. Na hora do sexo, têm muito medo da Aids. Quanto às drogas, espantalho dos pais, eles preferem a que os adultos se permitem, o álcool. Cúmulo para quem imagina que os adolescentes sejam contestatórios: em sua maioria, eles acham que o que aprendem na escola é de grande utilidade para o futuro. Em suma, a surpresa da pesquisa de hoje não está nos resultados, mas no nosso susto ao lê-los: ainda acreditávamos numa visão cinematográfico-literária da adolescência. Ou seja, supúnhamos que os adolescentes fossem insubordinados e visionários. Será que já foram e desistiram? Ou será que nunca foram, como sugere a comparação com a pesquisa Datafolha de 1998 e com outra, da revista “Realidade”, de 1967? A adolescência como época separada e específica da vida foi inventada nos anos 1950 e 1960. É nessa época que o cinema e a literatura (narrativas inventadas pelos adultos) criaram a figura do adolescente revoltado, ao qual foi confiada a tarefa de encenar as rebeldias inconfessáveis e frustradas dos adultos. Uma explicação materialista para esse fenômeno diz que, no quase pleno emprego do pós-guerra europeu e americano, era bom que os jovens levassem mais tempo antes de chegar ao mercado de trabalho; ou, então, que um tempo maior de preparação e estudo era exigido por um mercado de trabalho cada vez mais especializado. Outra explicação, menos materialista, diz que os adultos, na pequena prosperidade do pós-guerra, achavam sua vida um pouco chata (e era, de fato, mais do que nunca, massificada). Os adultos, portanto, sonhavam com aventuras às quais pareciam ter renunciado em troca de uma casa, um liquidificador, dois carros e uma TV. E eles inventaram a adolescência como encarnação de sua vontade de uma vida menos enlatada. A invenção cultural da adolescência nem sequer transformou a maioria dos adolescentes em rebeldes. Mas produziu um clima suficiente para que, aos 20 anos, alguns membros da geração nascida logo após a guerra chutassem o balde que os adultos queriam, mas não sabiam chutar: contracultura, aspirações sociais, revolução sexual etc. O mundo ficou melhor para todos. Mas foi um momento especial, em que a insatisfação reprimida dos adultos do pós-guerra delegou aos jovens uma missão quase revolucionária. Desde então, é como se a adolescência tivesse perdido sua razão de ser. Resta, aos adultos, a expectativa de que os adolescentes corram os riscos que a gente não quer mais correr ou nunca quis, de que eles sejam nossa face audaciosa, sedenta de experiências e de terras incógnitas, generosamente preocupada com um mundo melhor. Mas é uma expectativa vaga, que se confunde com nossa vontade periódica de tirar férias. Pág. 2 Hoje, quais são nossas aspirações extraordinárias e escondidas? Quais os sonhos que os adolescentes defenderiam e encenariam para nós? São apenas visões de nós mesmos, um pouco mais bem-sucedidos. O tempo da adolescência acabou. O que sobrou dele? Talvez apenas uma trilha sonora. Contardo Calligaris, 59, é psicanalista, colunista da Folha e autor de livros como “O Conto do Amor” (Companhia das Letras) e “A Adolescência” (Publifolha). Sobre o texto 1, marque a resposta correta. 1) O texto de Cotardo Calligaris se desenvolve de modo a argumentar a favor da seguinte tese: A) A adolescência é marcada pela caretice dos jovens. B) Na adolescência, os jovens não têm definição política. C) A adolescência é marcada pela insubordinação dos jovens. D) A adolescência é uma invenção cultural. E) Na adolescência, os jovens não gostam de correr riscos. 2) NÃO constitui argumento para a defesa da tese de Calligaris: A) A surpresa da pesquisa não está em seus resultados, mas no susto que causou a leitura desses resultados. B) O cinema e a literatura (narrativas inventadas pelos adultos) criaram a figura do adolescente revoltado, ao qual foi confiada a tarefa de encenar as rebeldias inconfessáveis e frustradas dos adultos. C) No quase pleno emprego do pós-guerra europeu e americano, era bom que os jovens levassem mais tempo antes de chegar ao mercado de trabalho. D) Os adultos, na pequena prosperidade do pós-guerra, achavam sua vida um pouco chata (e era, de fato, mais do que nunca, massificada). E) Os adultos, portanto, sonhavam com aventuras às quais pareciam ter renunciado em troca de uma casa, um liquidificador, dois carros e uma TV. De acordo com o professor Celso Cunha, as conjunções “são vocábulos gramaticais que servem para relacionar duas orações ou dois termos semelhantes da mesma oração” (Nova gramática do português contemporâneo, 1999, p. 565). Muitas vezes, as conjunções não se limitam a essa descrição feita pelo gramático, como é o caso da opção: 3) Em ´´Em suma, a surpresa da pesquisa de hoje não está nos resultados, mas no nosso susto ao lê-los: ainda acreditávamos numa visão cinematográfico- literária da adolescência.`` ( linhas 15/16 ), o vocábulo sublinhado estabelece entre a 1ª e a 2ª oração do período uma relação de A) explicação. B) causa. C) contraste. D) comparação. E) adição. 4) Em ´´Os adultos, portanto, sonhavam com aventuras às quais pareciam ter renunciado em troca de uma casa...`` ( linhas 29/30 ), a palavra destacada tem o mesmo sentido dos vocábulos abaixo, EXCETO: A) renegado B) abdicado C) execrado Pág. 3 D) desencilhado E) rejeitado 5) ´´ Não são aventurosos: têm pouca vontade de viajar...`` ( linha 10 ), a palavra destacada se refere aos A) aventurosos. B) adolescentes. C) pais. D) preocupados. E) caretas.

Observe o comportamento sintático do verbo garantir em “que lhes garanta casa própria e carro” (linha 5 ). A opção em que há nos períodos abaixo um verbo cuja predicação seja semelhante à do verbo garantir é:

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