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Questões de Língua Portuguesa · CMRJ

Língua PortuguesaInterpretação de textosCMRJ 2005

CMRJ

Questão de Língua Portuguesa

Texto 2 Porque não era uma folha morta Marina Colassanti Havia uma folha morta no peitoril da janela do meu quarto, entre a vidraça e os gerânios. Uma folha escura. E indo regar as plantas, quis limpar aquele espaço e empurrei de leve com a pazinha de jardinagem. Mas havia um peso na folha, uma densidade mole que não sendo resistência também não era entrega. E olhando mais atentamente vi que dela uma extremidade se alongava para um lado, e que na ponta daquele prolongar havia filamentos que, sim, olhando mais de perto, sim, eram pequeníssimas garras. E aquilo que havia visto como pedúnculo pareceu-me uma breve cauda. Tomada de súbito asco, percebi que não era uma folha morta, era um morcego. Todos os morcegos da infância pareceram esvoaçar ao meu redor. E fui de novo menina de camisola num grande quarto de paredes claras, olhando fascinada o longo bambu que uma mulher agitava enquanto a negra forma alada tentava escapar com rápidos desvios. Só um bambu que gira, havia aprendido para sempre, anula o radar do morcego e pode abatê-lo. Quando foi que aprendi, como toda mulher aprende, que nos cabelos longos o morcego se enreda e se debate? Quem me disse que para livrar a mulher é preciso corta-lhes os cabelos? Nunca mais cabelos soltos ao entardecer, quando no jardim ou à porta de casa olhava as silhuetas em revoada contra o céu já quase escuro, nunca mais cabelos sobres os ombros sem que a mão deslizasse a lhes dar nó. Nas grutas da minha infância, morcegos pendentes no alto, sempre mantive o passo leve para que nenhum daqueles casulos despertasse alertando os outros com seus guinchos. Fascínio e medo pareciam ligar-me àquelas criaturas adormecidas que me ignoravam. Um morcego sugou durante a noite o sangue do cavalo. Na manhã seguinte, entrando com meu pai na cavalariça, vi a ferida brilhar no pescoço do animal, e não era orvalho o que escorria. Se o morcego ousava na carne de animal tão grande, o que impediria que buscasse o meu pescoço? Durante várias noites dormi com a cabeça debaixo do lençol, sem que as venezianas fechadas bastassem para me tranqüilizar. O tempo passou e não fui mais menina. “Socorro!”, gritaram uma noite minhas filhas. “Tem um morcego no quarto!” e estavam de camisola, com longos cabelos soltos. Agora, em pleno dia, diante daquela folha que folha não é, não grito por socorro mas vou até meu marido e peço, com os dentes presos de desconforto e a pele oprimida pelo asco, “por favor, me ajuda , tem um morcego no quarto”. O morcego está ali e não se move. Mas está vivo. Respira. Aos poucos, aquele mínimo respirar desfaz em mim a imagem desde sempre acumulada. Não é mais um morcego repugnante o que vejo sobre o mármore, mas uma criatura pequena e ferida que luta para sobreviver. E uma enorme compaixão me invade. Está ao sol, logo ele, que não o suporta. Com certeza, entrou ontem à tardinha, debateu-se buscando a saída, feriu-se e ficou ali, preso, enquanto fechávamos a janela e ligávamos o ar-condicionado. Sem ter como escapar, viu a noite afastar-se e lentamente entregá-lo a seu pior inimigo. A delicada arquitetura das asas transformou-se no trapo que agora o envolve. Ele sofre, há muitas horas sofre e tem medo. “Morcego, morcego”, murmura meu coração, “perdoe o nojo, perdoe o desamor”. Meu afeto o embala e acaricia, embora eu própria não o faça para não aumentar-lhe as dores. Meu afeto lhe diz coisas ternas para ajudá-lo a morrer ou a voar, enquanto, com cuidado, meu marido o liberta e lhe abre a janela. Jornal do Brasil, 14 de Agosto de 2005, Caderno B3 Vocabulário: Gerânios: Nome comum a várias espécies de ervas e às suas flores. Pedúnculo: Suporte que sustenta flor ou fruto.

No texto, qual (is) era(m) o(s) pior(es) inimigo(s) do morcego no texto II?

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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.