Língua PortuguesaInterpretação de textosCMRJ 2022
CMRJ
Questão de Língua Portuguesa
Texto 2 Uma carta Machado de Assis Celestina, acabando de almocar, voltou a alcova, e, indo casualmente a cesta de costura, achou uma cartinha de papel bordado. Nao tinha sobrescrito, mas estava aberta. Celestina, depois de hesitar urn pouco, desdobrou-a e leu: Meu artyo adorado, Perdoe-me esta aud6cla, mos nao posso mats resistlr ao desejo de lhe abrir o meu cora€ao e dizer que a adoro com todas as for€as da mlnha alma. Mats de uma vez tenho passado pela rua, sem que a senhora me de a esmola de urn olhar, e h6 muito tempo que susplro por lhe dlzer .isto e pedir-lhe que me fa€a o ente mats feltz do mundo. Se nao me ama, como eu a amo, crela que morrerei de desgosto. Os seus olhos llndos como as estrelas do c6u s6o para mim as luzes da exlst€ncla, e os seus 16bios, L0 semelhantes as p6talas da rosa, tern toda a frescura de umjardlm de Deus... Nao copio o resto; era longa a carta, e no mesmo estilo composto de trivialidade e imagina€5o. Apesar de longa, Celestina leu-a duas vezes, e, em alguns lugares, tr6s a quatro; naturalmente eram os que falavam da beleza dela, dos olhos, dos labios, dos cabelos, das maos. Estas pegavam tremulas na carta, tao comovida ficara a dona, tao assombrada de urn tal achado. Quem poria ali a carta? Provavelmente, a empregada -a dnica empregada da casa, peitada pelo autor. E quem seria este? Celestina nao tinha a menor lembran€a que pudesse llgar ao autor da carta,. mas, como ele dlzla que ela mesma nao lhe dera a esmola de urn olhar, estava explicado o caso, e s6 restava agora reparar bern nos homens da rua. Nessa mesma tarde, ela foi mais cedo para a janela, e mais enfeitada, esteve menos distraida com outras coisas. Nao tirou os olhos da rua, abaixo e acima; nao apontava rapaz ao longe, que nao o seguisse com curiosidade inquieta e esperan¢osa. Joaninha notava que Celestina, sua irma, nao estava como de costume; e 6 possivel mesmo que lhe atribuisse algum princ`pio de namoro. A m5e 6 que nao via nada. Sentada na outra janela (era uma casa assobradada), ora cochilava, ora perguntava as filhas quem era que ia passando. Celestina, aquele nao 6 o Dr. Norberto? - Joaninha, parece que l5 vai a familia do Alvarenga. Perto das ave-marias, viu Celestina surgir da esquina urn rapaz, que, t5o depressa entrara na rua, p6s os olhos na casa. Passou pelo lado oposto, lento, evidentemente abalado, olhando ora para o chao, ora para a janela. Foi ate o fim da rua, atravessou-a, e voltou pelo lado da casa. Ja entao era urn pouco escuro, nao tanto, por6m, que encobrisse a gentileza do rapaz, que era positivamente urn rapagao. Celestina ficou realmente fora de si. A irm5 nao viu o que era, mas concluiu que algu6m teria passado na rua, que enchera a alma de Celestina de uma vida desusada. Com efeito, durante a noite, esteve ela como nunca, alegre, e ao mesmo tempo pensativa, esquecendo-se de si e dos outros. (...) Celestina, recolhida ao quarto, meteu-se na cama, e releu a carta do rapaz, lentamente, saboreando as palavras de amor, e os elogios a beleza dela. Quando cansou de ler a carta, meteu-a debaixo do travesseiro, e disp6s-se a dormir. Mas qual dormir! Fechava os olhos, mas o sono andava pelas casas dos indiferentes, nao queria ncida com uma pessoa em quem as esperancas mortas reviviam com o vigor da adolescencia. Celestina recorria a todos os estratagemas para dormir; mas o rapaz da carta fincava-lhe os olhos ardentes, e ia de urn lado para outro; nao tinha mais que contempla-lo. N5o era ele o namorado, o apaixonado, o noivo pr6ximo? Que ela planejara tudo: no dia seguinte escreveria uma resposta ao rapaz, e da-la-ia a empregada, para que a entregasse. Estava disposta a n5o perder tempo. Era meia-noite, quando Celestina conseguiu adormecer,. e antes o fizesse ha mais tempo, porque sonhou ainda com o rapaz, enao perdeu nada. Sonhou que ele tornara a passar, recebera a resposta e escrevera de novo. No fim de alguns dias, pediu-lhe autoriza¢ao para solicitar a sua mao. Viu-se logo casada. Foi uma festa brilhante, concorrida, a qual todas as pessoas amigas foram, cerca de dezoito carros. Nada mais lindo que o vestido dela, de cetim branco, urn ramalhete de flores de laranjeira, ao peito, algumas outras nos apanhados da saia. A grinalda era lindissima. Toda a vizinhan¢a nas janelas. Na rua gente, na igreja muita gente, e ela entrando por meio de alas, ao lado da madrinha... Quem seria a madrinha? D. Mariana Pinto ou a baronesa? A baronesa... A mae talvez quisesse D. Mariana, mas a baronesa... Em sonhos mesmo discutiu isso, interrompendo a entrada triunfal no templo. padrinho da noiva era o pr6prio ministro da Justica, que ia ao lado dele fardado, condecorado, brilhante, e que, no fim da cerim6nia, veio cumprimenta-la com grande aten¢ao. Celestina estava cheia de si, a mae tamb6m, a irma tamb6m, e ela prometia a esta urn casamento igual. - Daqui a tres meses, voce esta tamb6m casada, dizia-lhe ao receber dela os parab6ns. Muitas rosas desfolhadas sobre ela. Eram caidas da tribuna. 0 noivo deu-lhe o bra¢o, e ela saiu como se fosse entrando no c6u. Os curiosos eram agora em maior ndmerci. Gente e mais gente. Chegam os carros,. lacaios aprumados abrem as portinholas. La vat depois o cortejo devagar e brilhante, todos aqueles cavalos brancos pisando o chao com uma gravidade fidalga. E ela, ela, tao feliz! Ao lado do noivo! A fada branca dos sonhos continuou assim a fazer surgir do nada uma por€ao de coisas belas. Celestina descobriu, no fim de uma semana de casada, que o marido era principe. Celestina princesa! A prova 6 que aqui esta urn palacio, e todas as portas, lou¢a, cadeiras, coches, tudo tern armas principescas, no escudo, uma aguia ou le5o, urn animal qualquer, mas soberano. - Vossa Alteza se quiser... - Rogo a vossa Alteza. - Perdao, Alteza„. E tudo assim, ate quase de manha. Ante5 do sol, acordou, esteve alguns minutos esperta, mas tornou a dormir para contlnuar o sonho, que entao j5 n5o era de pr'ncipe. 0 marido era urn grande poeta, viviam ao p6 de urn lago, ao p6r-do-sol, cisnes nadando, urn princ`pio da lua, e a felicidade entre eles. Foi esta a dltima fase do delirio. Celestina acordou tarde; ergueu-se ainda com o sabor das coisas imaginadas, e o pensamento no namorado, noivo pr6ximo. Embebida na imagem dele, foi as suas ablu¢6es matinais. A empregada entrou-lhe na alcova. ~ Nhs Titina.„ - Que 6? A funcionaria hesitou. - Fala, fala. - Nhs Titina achou na sua cesta uma carta? - Achei. - Vosmec6 me perdoe, mas a carta era para sua irma, nhs Joaninha... Celestina empalideceu. Quando a empregada a deixou s6, Celestina deixou cair uma lagrima - efoia dltimaqueoamorlhearrancou. (Adaptado de http://www.dominiopublico.gov.br, acesso em 27 SET 22)
Releia o seguintetrecho extraidodoTEXT0 2: E tudo assim, ate quase de manh5. Antes do sol, acordou, esteve alguns minutes esperta, mas tornou a dormir para continuar o sonho, que ent5o ja nao era de principe. a marido era urn grande poeta, viviam ao p6 de urn lago, ao par-do-sol, cisnes nadando, urn principio da lua, e a felicidade entre eles. Foi esta a tiltima fase do delfrio. Com base na leitura dessa passagem, 6 correto afirmar que
Mais questões de Interpretação de textos
- CMRJ 2027Os textos I e II tratam os smartphones como os itens da contemporaneidade que têm levado as pessoas em geral a lidar (ou a não saberem lidar) com o hábito cotidiano. Que fragmento…
- CMRJ 2027No subtítulo o autor lança uma pergunta: “Quando é a hora de desligar?”. Considerando o contexto em que foi usada, trata-se de um convite à reflexão que, na prática, vai lidar com…
- CMRJ 2027Na crônica de Veríssimo, o título chama a atenção para uma expressão, usada ao final, em uma exemplificação que
- CMRJ 2027Qual é a crítica presente na charge (Texto V) e como o elemento verbal é inserido?
- CMRJ 2027Considere o fragmento: “Infelizmente, não posso pregar. Eu também faço parte do clube que prefere o smartphone ao velho e bom cochilo.” (l. 11-12). Para que se estabeleça uma rela…
Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.