Língua PortuguesaDiscurso direto, indireto e indireto livreCMRJ 2006
CMRJ
Questão de Língua Portuguesa
Texto 01 O menino que espiava pra dentro Ana Maria Machado Lucas é um menino que presta muita atenção em tudo. Às vezes, fica reparando nas coisas que todo mundo vê: as formigas em fila, as gotas de chuva escorrendo na vidraça, os desenhos no rótulo do vidro de geléia. Mas outras vezes, ele fica tão distraído olhando para alguma coisa que não repara nem responde quando falam com ele. Nessas horas, a avó de Lucas costuma dizer: — Ele está espiando pra dentro. E está mesmo. Às vezes, ele espia pra dentro como todo mundo — de noite, dormindo, sonhando. E, nesse caso, também como todo mundo, vê coisas que mais ninguém está vendo. Mas outras vezes, mesmo de dia, mesmo acordado, mesmo de olhos abertos (ou fechados, tanto faz), ele espia pra dentro. E aí vê coisas que muita gente não consegue ver. Se ele brinca debaixo da mesa de jantar e espia pra dentro... passa a morar numa cabana no meio da floresta, por entre cipós pendurados, cercado de árvores e animais selvagens, ouvindo o canto dos passarinhos. Se ele senta na rede da varanda, encolhe as pernas, balança um pouco e espia pra dentro... está enfrentando as ondas do mar agitado, em um veleiro que sobe e desce vencendo a tempestade, chegando a ilhas desertas ou lutando contra piratas em abordagens perigosíssimas e cheias de emoção. Se ele vai para a cama dos pais numa manhã de domingo, se mete de cabeça por baixo das cobertas enquanto eles lêem o jornal, e espia pra dentro... mergulha até o fundo do mar, explorando grutas, nadando entre peixes e algas, procurando tesouros. Se na réstia de sol da janela ele estica a mão no meio da poeira dançarina, e espia pra dentro... viaja numa nave espacial pelas galáxias desconhecidas do espaço infinito, em meio a chuvas de meteoros e bombardeios de brilho. O caso é que sempre, em qualquer lugar, Lucas consegue espiar pra dentro e sair dali. Começou a virar uma mania. E ele foi achando isso tão divertido e tão melhor que viver nos mesmos lugares que todo mundo, mas tão mais divertido mesmo e tão melhor mesmo, que acabou inventando um plano. E tratou de discutir o plano com Talento. Talento era um amigo de Lucas que morava nesses lugares onde ele ia quando ele espiava pra dentro. Lucas nem sabia se o nome dele era esse de verdade, e gostava mesmo era de chamar o amigo de Tatá. Era o companheiro de todas as aventuras e explorações. No começo, nem tinha nome. Mas como ele sempre vinha com calma, sem pressa, e Lucas queria que ele andasse mais rápido, reclamava: — Tá lento, tá lento... O amigo achava graça e continuava. Devagar e sempre. Um dia, achou graça no nome e corrigiu: — Ta lento, não. Tá manco. E Lucas ficou sem saber o que era. Talvez o amigo estivesse explicando que andava devagar porque não ia lá muito bem das pernas, mancava ou tinha pouca firmeza. Ou era porque gostava de usar tamanco ou chinelo. Talvez o amigo estivesse brincando com ele, Lucas, que às vezes bem que se sentia manco, com esse negócio de viver pisando com um pé no mundo lá de fora e outro no lá de dentro. Ou então, também podia ser que o garoto estivesse explicando que o nome dele não era Talento, era Tamanco. De qualquer jeito, Lucas acabou passando a chamar o amigo de Tatá. E foi com Tatá que ele foi discutir seu plano: — Ando com vontade de vir ficar para sempre aqui com você. Tatá coçou a cabeça, sorriu, bocejou, e ganhou tempo, repetindo: — Para sempre? Lucas logo confirmou: — Para sempre. Feliz para sempre. Que nem nas histórias. Aqui é que eu faço tudo o que eu quero. Tatá respirou fundo, abriu a boca como se fosse falar, depois só suspirou. Lucas insistiu: — Vamos, desembucha, cara. Que é que você acha? Pelo tempo que Tatá levou para responder, parecia que estava era procurando e ainda não tinha achado nada. Mas, finalmente, disse: — Eu acho que para sempre é demais. Ana Maria Machado. O menino que espiava pra dentro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. Sobre o TEXTO 01, responda:
Predomina, no TEXTO 01, o discurso
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.
