Língua PortuguesaCrônica e contoLegalle 2025
Pref Igrejinha
Questão de Língua Portuguesa
Longa vida àqueles que ainda vivem para nos inspirar Lembro das risadas que Ney Latorraca provocava em novelas que iam ao ar logo após o telejornal onde Gloria Maria exibia suas primeiras reportagens. Nos intervalos, os bordões criados pela equipe de Washington Olivetto nos induziam a escolher determinada marca de geladeira ou de lingerie, e depois, tevê desligada, era a hora de escutar Gal Costa ou bailar com Rita Lee, mulheres modernas que também devem ter lido as crônicas, contos e poemas de Marina Colasanti, que abriu tantas portas para nós. É um baque chegar nesta fase da vida sabendo que amanhã ou depois virá a notícia de mais uma baixa entre aqueles que fizeram parte da nossa história. Estão nos deixando, um a um. Eles adoecem, eles envelhecem — assim como nós. Perdê-los é perder-se também. O paradoxo é que, mesmo abalados por esta "renovação de estoque" (assim Millôr Fernandes designava o processo de nascimento e morte), ainda assim, só temos a celebrar. Tivemos a honra de sermos todos contemporâneos. Cada época tem seus ícones, e minha geração foi bem sortuda com o elenco que lhe coube. Que tipo de existência teríamos sem os craques da Tropicália e do Asdrúbal, sem Domingos Oliveira, sem Antonio Cicero? Os dias se tornam inúteis se não escutamos uma canção ou lemos um poema de algum mortal que ajuda a nos formatar. Quem primeiro me alcançou um livro de Marina Colasanti foi minha mãe, eu tinha 20 anos, e a partir daí Marina também assumiu, para mim, um papel maternal. Ambas — mãe em contato direto e escritora em contato indireto — foram os faróis que me conduziram na vida: Martha, é por aqui. Hoje sei que de nada vale o empenho diário — trabalhar, sobreviver, cuidar dos outros, cuidar de si, sofrer, resistir — se não formos compensados por momentos de plenitude, em que nos conectamos com as ideias e os sentimentos de estranhos que iniciam um diálogo secreto conosco e fazem nossa consciência se expandir. Às vezes, quando fico sem ânimo com o rumo que o mundo está tomando, me pergunto ______ estou mofando dentro de um apartamento, cumprindo horários e compromissos repetitivos a fim de manter a ordem social, em vez de viver de forma mais lúdica, em simbiose com a natureza, livre das agendas e das expectativas dos outros? Não ______ resposta certa, todo cotidiano é imperfeito: nenhuma maneira de existir atende 100% às nossas necessidades. Então passamos a vida tentando nos adequar, até que chega o dia em que o esforço não é mais preciso. Fim. Em que tudo isso vai dar, afinal? Em nada. Somos seres domesticados que cumprem o script universal e que precisam desesperadamente de transcendência, portanto, saudemos os talentos multiculturais que nos salvam da brutalidade e da tacanhice. Longa vida àqueles que ainda vivem para nos inspirar. Autora: Martha Medeiros
Martha Medeiros expressa um sentimento de perda em relação a personalidades marcantes de sua geração. Esse sentimento é transmitido principalmente por meio de:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

