Questões de Língua Portuguesa · Cebraspe

Língua PortuguesaOrações reduzidas e desenvolvidasCebraspe 2014

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Questão de Língua Portuguesa

Velhos amigos, de Ecléia Bosi 1 Por que sentimos, ao longo da leitura de Velhos amigos, uma comoção discreta a nos acompanhar por todas as estórias, sendo elas tão diferentes entre si? Será que as estórias 4 mantêm um vínculo de simpatia, como se houvesse uma continuidade secreta que as fizesse compartilhar uma reiterada variação em fuga? 7 A impressão que temos, após a leitura de Velhos amigos, é que, pelo livro todo, corre uma utopia de civilização, em que a história dos homens se encontraria com o ciclo da 10 natureza, e esta, por sua vez, seria humanizada pela intervenção libertadora dos gestos de cultivo. Assim, as cabaças e abóboras que crescem e se entrelaçam pelo meio das páginas são 13 testemunho de culturas que, do fundo da terra, fizeram-nas germinar e guardaram suas sementes ao longo do tempo, e souberam usar flores e frutos para alimento e adorno e música. 16 Desse modo, a autora Ecléia Bosi parece tratar as suas estórias, que nem sabemos definir se são contos, se são crônicas, memórias ou reflexões — como se nelas não 19 houvesse arranjo algum, ou artifício, mas uma vizinhança da evocação as fizesse brotar, como se a cultura fosse um crescimento em continuidade com a natureza, e que a máxima 22 felicidade fosse a do homem que consegue escapar do mundo administrado e de todo seu falso progresso. As personagens sonham — o taxista entrevê uma ilha, porto de seus olhos 25 cansados, atrás da fumaça do trânsito; o jardineiro prefere arrancar as ervas daninhas com a mão — instrumento mais refinado que a enxada —, e se cura do veneno de cobra 28 nadando em cachoeiras (ao invés de tomar injeções e remédios); a bola do menino é levada pelas ondas e se assemelha a um planeta azul flutuando na névoa — objeto 31 liberto para a contemplação. Mas, mesmo pelas estórias de final feliz, perpassam, em Velhos amigos, uma sombra de nostalgia, uma pungência 34 próxima do patético. Bakhtin, no seu trabalho sobre a história do romance, percebeu que os heróis da antiguidade são monumentais, colocados num pedestal, distantes de nós, 37 especialmente na épica e na tragédia. O herói moderno, pelo contrário, é nosso companheiro — com ele nos identificamos, rimos e choramos. Essa proximidade começou na época do 40 romantismo, no século XIX, momento em que os pobres passaram a ser figurantes sérios na literatura. É dessa maneira que o tom de Velhos amigos chega 43 perto do leitor, que sente continuamente um nó na garganta, como se fizesse parte daquele círculo de personagens, seus parentes e amigos antigos, e participasse do desenlace de suas 46 vidas. O tom narrativo participa da mesma despretensão, despertando a simpatia do leitor para personagens e eventos da experiência comezinha, resgatados por uma espécie de aura 49 não sublime ou heroica e, sim, muito próxima de nós. Dessa forma, nós leitores, somos levados a descobrir, através de Velhos amigos, “uma brecha para entrar no 52 passado”. Passado que ainda está passando, mantido em fundos de potes de cabaça que, quando abertos, permitem que se inale de repente um sopro, que sorvemos como quem anda distraído 55 pela rua e, só por um breve momento, sente o cheiro suave e penetrante de uma árvore perfumada, e logo continua seu caminho, agora feliz, em devaneio, aberto para outra dimensão 58 do tempo, livre por um instante da coação das tarefas imediatas. O livro vai abrindo portas no coração da confraria de 61 leitores que, por meio de seu encanto, vão entrando e participando das estórias, despertando em cada um a vontade de narrar. À medida que descobrem (descobrimos) o 64 significado ampliador da memória e da experiência, realizamos o desejo de nos tornarmos todos Velhos amigos. Viviana Bosi. In: Revista Psicologia USP, mar./2008. Internet: <http://pepsic.bvsalud.org> (com adaptações).

Ainda em relação ao texto, julgue os itens seguintes. No trecho: “O tom narrativo participa da mesma despretensão, despertando a simpatia do leitor para personagens e eventos da experiência comezinha” (R.46-48), a oração reduzida de gerúndio reforça a consistência semântica temporal presente no período.

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