Língua PortuguesaGêneros textuaisCOMVEST UNICAMP 2025
UNICAMP
Questão de Língua Portuguesa
“A primeira coisa do sotaque é que ele não existe entre os seus. Ele vem com o outro ou quando você é o outro. E você nota. A primeira vez que eu notei que existia um outro sotaque foi quando eu me mudei do interior da Bahia para Salvador: tem o baianês caipira, do sertão, e ele é diferente do baianês litorâneo”, relata o roteirista Tetel Queiroz, um homem branco na faixa dos 40 anos. O depoimento de Queiroz integra uma conversa entre 12 pessoas, de várias partes do Brasil, que discorrem sobre a percepção dos sotaques. Disposto em telões, o bate-papo pode ser visto na exposição Fala falar falares, no Museu da Língua Portuguesa, no centro da capital paulista. A variação linguística impacta a vida das pessoas, comenta a linguista Livia Oushiro, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Nos últimos anos, ela tem investigado a fala de migrantes nordestinos, sobretudo de Alagoas e da Paraíba, radicados nas regiões metropolitanas de Campinas (SP) e da capital paulista. A maioria é oriunda da zona rural, está na idade adulta (entre 20 e 60 anos) e cursou apenas o ensino básico. Em seus estudos, a pesquisadora vem tentando responder se essas pessoas adquirem traços linguísticos da nova localidade. Oushiro analisou os termos utilizados por esses migrantes e a pronúncia de R em coda silábica, que no português paulista pode ser um R retroflexo, também caracterizado como “R caipira”. “É um som ausente na fala nordestina, que geralmente adota um som aspirado”, diz a pesquisadora. “O migrante pode estar em Campinas há 30 ou 40 anos, mas não necessariamente vai adquirir mais traços linguísticos do lugar onde passou a morar ou passar por um processo de mudança gradual para absorver essas características”, constata a pesquisadora. “Verificamos essa correlação do tempo com a pronúncia do R, mas não em outras variáveis. Por isso, é importante olhar detalhadamente para o percurso de cada pessoa e conferir outros fatores que influenciam sua trajetória linguística, como as redes de sociabilidade, compostas pelas interações com vizinhos e colegas de trabalho, por exemplo.” Julgar pela língua O linguista Ronald Beline Mendes, da Universidade de São Paulo (USP), desde a década de 2010, investiga como determinados traços da fala são percebidos socialmente e associados à identidade de homossexuais masculinos. “É a chamada ‘fala gay’, ideia que, por si só, é problemática, pois isso pressupõe que, sendo gay, a pessoa vá necessariamente soar de uma certa forma, mas essa não é uma relação obrigatória”, observa. “É possível que um homem homossexual não soe ‘gay’, assim como um homem que não é homossexual pode, eventualmente, soar dessa forma.” Em uma de suas pesquisas, realizada em 2017, cinco homens leram o mesmo texto e um grupo de pessoas foi convidado a ouvir e avaliar as gravações dessas leituras, indicando, entre outras coisas, quais vozes soavam como “gay”. Uma das respostas indicava que a pessoa “falava muito certinho”, outra citou que “homens gays usam muito diminutivo”. Ambos os comentários revelam estereótipos sociais, já que todos os participantes leram o mesmo texto, que não continha diminutivos. Desde então, Mendes desenvolveu seus estudos de percepção com foco em duas variáveis linguísticas: a concordância nominal e a pronúncia do E nasal. No primeiro caso, após ouvirem quatro vozes masculinas em diversas versões, os participantes elencaram de forma homogênea que essas, quando apresentadas na variante padrão da língua, ou seja, com concordância plenamente realizada, soavam “mais gay”. Além disso, ouvintes do sexo masculino atribuíram essa característica mais vezes do que as mulheres, um indicativo de que o estereótipo sobre como deve soar uma voz masculina é mais rigoroso entre os próprios homens. Para Mendes, esses resultados ilustram como aspectos linguísticos operam na construção de significados sociais. “Isso faz parte do funcionamento da língua. O problema é quando essa percepção se transforma em preconceito e passa a ser usada para prejudicar pessoas”, conclui. (Adaptado de A. Marchetto, Os jeitos de falar. Revista Pesquisa Fapesp, nº 354, de agosto de 2025, p. 80-83.)
Marque a alternativa que descreve corretamente o texto 1 em relação ao gênero discursivo e à esfera de circulação.
Mais questões de Gêneros textuais
- UNESC 2026O texto constitui um gênero textual com o objetivo de ensinar ou instruir o leitor, isto é, de transmitir conhecimento. Dessa forma, esses textos podem apresentar termos técnicos…
- Instituto Ágata 2026Considerando o texto V, assinale a alternativa que resume corretamente a importância do trabalho em sala de aula com gêneros a partir dos seus domínios discursivos.
- DEPSEC UNIFAP 2026Com base na leitura do Texto 1, assinale a opção CORRETA.
- FGV 2026Observe o texto narrativo a seguir. “A rua e a casa vivem ainda, eu sei, mas que importa, se a magia que as envolvia desapareceu, se o segredo – luz, odores, harmonia de árvores e…
- FGV 2026A partir da análise dos títulos das matérias publicadas no G1 de Rondônia abaixo é possível identificar que o gênero utilitário de jornalismo está representado em
Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.