Questões de Língua Portuguesa · Legalle

Língua PortuguesaCrônica e contoLegalle 2025

SAMAE Caxias do Sul

Questão de Língua Portuguesa

Kafka e os estudos. Fui uma aluna, digamos, razoável. Tirava notas boas, passava quase sempre por média, mas era desinteressada. Estudava o suficiente para passar de ano, mas não aprendia de verdade. Assim que alcançava as notas que me aprovariam, tudo o que eu havia decorado evaporava da minha cabeça. Não tenho orgulho nenhum em contar isso, me arrependo bastante de não ter prestado atenção para valer nas aulas e de não saber mais sobre história, em especial. Mas foi assim. E só fui compreender as razões desse meu desligamento ao ler Carta ao pai, de Franz Kafka. Nessa carta, ele a certa altura admite que estudou, mas não aprendeu nada, apesar de ter uma memória mediana e uma capacidade de compreensão que não era das piores. Considerava lastimável o que havia lhe ficado em termos de conhecimento. Disse ainda mais, e nisso exagerou: que seus anos na escola haviam sido um desperdício de tempo e dinheiro. Estudar nunca é um desperdício, mas quando li essa confissão audaciosa eu quis saber mais. O que aconteceu, afinal? A justificativa: ele sempre teve uma preocupação profunda com a afirmação espiritual da sua existência, a tal ponto que todo o resto lhe era indiferente. Há em “afirmação espiritual da existência” solenidade demais para descrever a menina que fui, mas era mais ou menos desse jeito que a coisa se dava. O que eu queria aprender de verdade não passava nem perto do quadro-negro. O que me interessava — e interessa até hoje — eram as relações humanas, e tudo de mágico e de trágico que elas representam numa vida. Entre os 7 e os 17 anos, eu tinha urgência em estudar o caminho mais curto para ser amada. A escola era como um país estrangeiro. Pela primeira vez eu não estava em casa, nem em segurança. Tinha que aprender como fazer amizades e mantê-las, como demonstrar emoções sem me fragilizar, como enfrentar agressões sem cair em prantos, como explicar minhas ideias sem me contradizer, como ser franca e ao mesmo tempo não ofender os colegas, e nisso gastei infindáveis manhãs e tardes prestando atenção em mim e nos outros — pouco nas lições. Havia um pátio, havia um bar, havia um portão fechado, havia os banheiros e a biblioteca, e tudo era desafiador. Eu tinha que descobrir em mim a coragem para quebrar certas regras, fumar escondido, namorar. Ficava muito atenta às diferenças entre sabedoria e hierarquia: não era possível que os professores estivessem sempre certos e os alunos, errados. E as matérias me pareciam tão inúteis... Matemática, química e física me eram desnecessárias, eu queria saber teatro, música, filosofia, psicologia, paixão, eu queria entender o que me fazia ficar zangada ou em êxtase, eu queria aprender mais sobre melancolia, desespero, solidão, eu tinha especial atração pelas guerras familiares e pelas mentiras que sustentam a sociedade, eu queria ter conhecimento sobre ironia, ter domínio sobre o pensamento, entender por que alguns gostavam de mim e outros me esnobavam, lutar contra o que me angustiava. Inocente, queria saber como se fazia para ter certezas. Eu, que tirava nota máxima em bom comportamento, precisava urgentemente que me explicassem o que fazer com o resto de mim, com aquilo que eu não usufruía, a parte errada do meu ser. Da escola saí faz tempo, mas nunca parei de me estudar. E Kafka, quem diria, acabou sendo um bom professor. Autora: Martha Medeiros (adaptado).

Qual é o principal motivo que Martha Medeiros apresenta para justificar seu desinteresse pelos conteúdos escolares?

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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.