Língua PortuguesaCrônica e contoDES IFSUL 2014
IF SUL
Questão de Língua Portuguesa
Por Lya Luft 1 Este é talvez um dos fatos mais assustadores e tristes do nosso momento: falta de 2 segurança generalizada, o medo, pois aqui se mata e se morre como quem come um 3 pãozinho. Bala perdida, traficante, bandido graúdo ou pequeno, e o menor de idade, que é o 4 mais complicado: pelas nossas leis absurdas, sendo menor, ele não é de verdade punido. É 5 levado para um estabelecimento hipoteticamente educativo e socializador, de onde deveria sair 6 regenerado, com profissão, com vergonha na cara, sair gente. Não sai. Não, salvo raríssimas 7 exceções, e todo mundo sabe disso. 8 Todo mundo sabe que é urgente e essencial reduzir para menos de 18 anos a idade em 9 que se pode prender, julgar, condenar um assassino feroz, reincidente, cruel e confesso. Mas 10 aí vem quem defenda, quem tenha pena, ah! os direitos humanos, ah! são crianças. São 11 assassinos apavorantes: torturam e matam com frieza de animais, tantas vezes, e vão para a 12 reeducação ou a ressocialização certamente achando graça: logo, logo estarão de volta. Basta 13 ver os casos em que, checando-se a ficha do “menino”, ele é reincidente contumaz. 14 Outro ponto dessa nossa insegurança é a rala presença de policiais em muitas cidades 15 brasileiras. Posso rodar quarteirões intermináveis de carro, e não vejo um só policial. Culpa 16 deles? Certamente não. Os policiais ganham mal, arriscam suas vidas, são mortos 17 frequentemente, são mais heróis do que vilões, embora muitos os queiram enxergar assim. 18 Onde não temos policiamento, mais insegurança. 19 Na verdade, a violência é tão alta e tão geral no país que mesmo porteiros treinados de 20 bons edifícios ou condomínios pouco adiantam: facilmente são rendidos ou mortos, e estamos 21 à mercê da bandidagem. 22 Banalizamos a vida também nessas manifestações de toda sorte, em que paus, barras 23 de ferro, bombas caseiras, até armas de fogo, não apenas assustam, não só ameaçam, mas 24 aqui e ali matam alguém. Incendeiam-se ônibus não apenas em protesto, mas por pura 25 maldade, com gente dentro, mesmo crianças: que civilização estamos nos tornando? Morrer 26 assassinado, mesmo sem estar no circuito perigoso dos bandidos, dos marginais, começa a se 27 tornar, não ainda banal, mas já frequente: nas ruas, às 10 da manhã, matam-se pais de 28 família ou jovens estudantes ou operários. Não falo em becos onde a violência impera e a 29 mortandade é comum, mas em ruas abertas de bairros de classe média. Não se passa semana 30 sem que se noticie criança morta por bala perdida. 31 Nada, quase nada mais nos espanta: estamos ficando calejados, não nas mãos por 32 trabalho duro, mas na alma pelo horror que nos assola tanto que a cada vez nos horrorizamos 33 menos. 34 Quero escrever uma coluna otimista. Quero escrever poemas delicados, romances 35 intensos, crônicas de amor pela cidade, pelas pessoas, pela natureza, quero tudo isso. Mas se 36 tenho voz, e vez, não posso falar de flores enquanto o asfalto mostra manchas de sangue, 37 famílias são destroçadas, ruas acossadas, casas ameaçadas, seres humanos feito coelhos 38 amedrontados sem ter para onde correr, nem a quem recorrer, e não se vê nem uma luz no 39 fim desse túnel. 40 Pouca esperança real temos. Nós nos desinteressamos para sobreviver 41 emocionalmente diante da horrenda banalização da vida representada não só pela quantidade 42 e violência dos crimes cometidos e impunes como pela punição incrivelmente pequena para 43 quem mata com seu automóvel por correr demais ou dirigir bêbado, por exemplo. O descaso, 44 ou a incompetência, com que tudo isso é administrado nos faz temer outra ameaça ainda: a 45 banalização da vida é o outro lado da banalização da morte. Fonte : Revista Veja, 26 de março de 2014 8
São feitas, a seguir, algumas afirmativas sobre o texto. I. As manifestações de rua, segundo o texto, representam um perigo à sociedade, já que propiciam ambiente no qual os bandidos externam principalmente sua revolta frente às desigualdades sociais. II. A cronista demonstra reconhecer no texto seu papel singular e responsável de portavoz dos problemas sociais que atingem o país, entre eles, o da banalização da vida. III. A autora argumenta em favor de um policiamento ostensivo, isto é, de um número maior de policiais nas ruas, em especial, naquelas em que trafegam estudantes, famílias e operários. IV. A forma descomprometida ou inábil com que as autoridades vêm gerenciando a criminalidade no país está fazendo com que nos acostumemos com a barbárie e, consequentemente, está alterando nossa forma de conceber a vida e a morte. Estão corretas as afirmativas
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.
