Língua PortuguesaNíveis de linguagem: formal e informalCEPERJ 2007
DEGASE
Questão de Língua Portuguesa
Bem-Te-Vi morreu há quase dois anos, mas, no momento mesmo em que foi morto, nem bem o carregavam como um fardo, já ia rumo ao esquecimento. Reis são mortos e postos a toda hora na Rocinha. Naquele dia, ia vistoriar seus postos de comércio cercado por 12 seguranças, sua guarda pretoriana, mas não sabia que, no caminho, policiais com 4 mil munições estocadas numa quitinete esperavam por ele. Ninguém 5 os havia visto entrar sorrateiros na cidadela, atravessando as vielas. Para isso havia vindo do Ceará. Para parar diante da quitinete às duas e tantas da madrugada daquele exato sábado, com seu cabelo pintado de vermelho, sua pistola Glock, seus 28 anos e a certeza de ter vencido na vida. Quem lhe pôs o apelido de Bem-Te-Vi não pensou no alçapão. E o apelido deve ter sido posto antes 10 dele virar bandido, porque bandido não tem apelido, tem codinome, e não ficaria bem a um bandido ser chamado como passarinho. Pelo menos não ao bandido que se sabia o mais procurado pela polícia, e que com seu celular se fotografou sorrindo, de peito nu, empunhando uma Uzi dourada. Àquele melhor caberia chamar-se Gavião. Erismar, como havia sido batizado no começo de tudo, quando ainda não era possível – ou era? – 15 prever sua trajetória, chegou no Rio aos 11 anos e aos 14 entrou para o tráfico. Os jovens que estão transformando as periferias de Paris em campo de batalha, incendiando carros e destruindo escolas, devem ter aproximadamente a mesma idade. Sim, é claro, os jovens franceses que a França abriga tão a contragosto, vindos das antigas colônias ou filhos de emigrantes, estão defendendo a sua cidadania, o seu direito à igualdade. Os jovens sempre descarregam em guerras o excesso de testosterona, e as causas nobres sem- 20 pre justificam a guerra. Um traficante não luta por causas nobres. Um traficante quando distribui presentes à comunidade e faz assistencialismo não é, à moda de Robin Hood, para redistribuir renda, mas para garantir conivência. Um traficante é uma variante de mercenário, faz guerra pelo butim e pela possibilidade, ainda que pequena, de vir um dia a ser chefe, com armas douradas, guarda de corpo e três mulheres. 25 Mas na sociedade do eu, que estimula a satisfação dos desejos e se esmera em multiplicá-los, na sociedade midiática em que 15 minutos de fama são meta mais recomendável do que uma digna vida obscura, na nossa sociedade que, após ter falsamente horizontalizado os bens e as marcas se volta agora para o luxo mais desenfreado e exclusivo, o dinheiro pode ser considerado uma causa suficientemente nobre para fazer- se soldado. 30 O reinado de Bem-Te-Vi não durou nem dois anos. O de Soul, seu sucessor, durou apenas dois dias. Ambos haviam acompanhado seu chefe, Lulu, e o haviam visto ser morto pela polícia. Ambos sabiam que só teriam 15 minutos pela frente. Mas achavam que valia a pena. E nas favelas deste país, que só fazem crescer, há cada vez mais jovens pensando dessa maneira. (Marina Colasanti – Jornal do Brasil, Caderno B – 6 de novembro de 2005, com adaptações) FESP-RJ 2
FESP-RJ
Classifica-se como coloquial a regência verbal presente em:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.