Língua PortuguesaNeologismos, abreviação e hibridismoFAURGS 2022
SES RS
Questão de Língua Portuguesa
01. Na semana passada, um dos tópicos que deixou o 02. mundo das redes sociais enfurecido foi o uso do verbo 03. despiorar, que voltou para ter mais quinze minutos de 04. fama. Digo mais porque este termo já tinha figurado 05. nesta coluna coisa de três anos, e não duvido 06. que os que hoje o condenam sejam os mesmos que 07. o vaiavam na ocasião. As reclamações contra este 08. “neologismo” são totalmente compreensíveis, mas 09. decididamente injustas, como veremos a seguir. 10. A maior parte dos falantes acredita que o Português, 11. como qualquer outra língua, seja um organismo regido 12. por um princípio de economia interna. Como no corpo 13. humano, nada nele há de supérfluo, pois a lenta 14. evolução foi implacavelmente eliminando (melhor 15. seria aposentando) aquilo que perdeu a serventia. 16. Ora, ao mesmo tempo, nosso idioma é verdadeira 17. máquina de criar palavras novas. Como um gigantesco 18. Lego (as peças são os radicais, os prefixos e os sufixos), 19. ele nos autoriza experimentar combinações 20. inéditas – aquelas que os gramáticos míopes do passado 21. chamavam de “neologismos”, sem se dar conta que 22. aquilo que é novo hoje logo deixará de sê-lo amanhã. 23. Centenas de palavras são experimentadas por este 24. mundão de brasileiros, portugueses e demais lusofa- 25. lantes. Algumas nunca chegarão ao dicionário, porque 26. não foram escritas; outras, ao contrário, exatamente 27. por terem sido escritas, ganharam um lugar que não 28. mereciam. Muitas dessas palavras estão registradas no 29. Houaiss e lá ficarão para sempre, inúteis, esperando 30. que algum incauto as leve para dar uma voltinha em 31. algum texto medíocre. Todas elas são combinações 32. feitas dentro das regras, mas não passam de tentativas 33. desastradas de sintetizar num só vocábulo aquilo que 34. ficaria bem melhor se fosse dito em duas. 35. E o despiorar não cai nessa categoria? Por que dar 36. luz esse monstrengo, se já temos o antônimo 37. melhorar? Acontece que temos aqui uma daquelas 38. oposições que não são do tipo pão, pão; queijo, queijo. 39. Elas admitem gradações intermediárias, como é o caso, 40. por exemplo, de pobre x rico. Criticaram o senador 41. Cristóvão Buarque quando escreveu que “Antes de 42. enriquecer o país, é preciso desempobrecer o seu 43. povo”. O contrário de pobre é rico, sim, mas 44. uma longuíssima estrada entre um e outro. O pobre 45. que tiver o seu mínimo salário dobrado terá desempo- 46. brecido um pouquinho, ou seja, estará menos pobre, 47. mas não ousaríamos dizer que ele terá ficado mais rico. 48. Se eu digo que a situação está despiorando, estou 49. frisando que ela era ruim, mas agora está menos ruim 50. – o que é muito diferente de dizer que ela melhorou. 51. E uma surpresa final: o leitor sabia que desde o século 52. 16 temos desmelhorar? Houaiss define como “fazer 53. retroceder as melhorias que se vinham processando” – 54. exatamente o reflexo espelhado de despiorar. Morais, 55. no século 19, chega a registrar um derivado: “Trás um 56. bom rei, que melhorou a fortuna, os costumes e as 57. artes de sua nação, sucede outro, desleixado, o 58. desmelhorador de tudo isso”. Hoje o julgamento do uso 59. foi feito e eles não são mais usados; vamos ver o que 60. acontecerá ao despiorar. Adaptado de: MORENO, C. Despiorando. Disponível em: <https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/claudio-moreno/noticia/2021/06/despiorandockq02tsi8009g018mm40z3cho.html>. Acesso em: 26 nov. 2021.
Considere as seguintes afirmações sobre o texto. I - Trata-se de um texto que explica motivos e processos de formação de neologismos em português. II - Trata-se de um texto que endossa os argumentos contra os neologismos. III- Trata-se de um texto que julga o desuso de despiorar em termos históricos. Quais estão corretas?
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.


