Língua PortuguesaNeologismos, abreviação e hibridismoVunesp 2026
Faculdade Belavista
Questão de Língua Portuguesa
1 Na estrada das Tabocas, uma vaca viajava. Vinha pelo meio do caminho, como uma criatura cristã. A vaquinha vermelha, a cor grossa e afundada — o tom intenso de azamar1. Ela solevava as ancas, no trote balançado e manso, seus cascos no chão batiam poeira. Nem hesitava nas encruzilhadas. Sacudia os chifres, recurvos em coroa, e baixava testa, ao rumo, que reto a trazia, para o rio, e — para lá do rio — a terras de um major Quitério, nos confins do dia, à fazenda do Pãodolhão. [...] Só, assim, a vaquinha se fugira, da Pedra, madrugadamente — entre o primeiro canto dos melros2 e o terceiro dos galos — o sol saindo à sua frente, num céu quase da sua cor. Fazia parte de um gado, transportado, de boiadeiros, gado de coração ativo. Viera do Pãodolhão — sua querência³. Apressava-se nela o empolgo de saudade que adoece o boi sertanejo em terra estranha, cada outubro, no prever os trovões. Apanhara a boca-da-estrada — para os onde caminhos — fronteando o nascente. Soada a notícia, seo Rigério, o dono da Pedra, disse: — “Diaba”. Ele era alto, o homem, para tão pequenina coisa. Seus sabedores informavam: que a marca sendo a de grande fazendeiro, da outra banda, distante. Seus vaqueiros, postos, prontos. Esse seo Rigério tinha os filhos diversos, que por em volta se achavam. Nem deles, para o quê, havia a necessidade. E vede de que maneira tudo então se passou. Só um dos filhos, rapaz, senhor-moço, quis-se, de repente, para aquilo: levar em brio e tomar em conta. Atou o laço na garupa. Disse: — “É uma vaquinha pitanga?” Pôs-se a cavalo. Soubesse o que por lá o botava, se capaz. Saiu à estrada- -geral. Ia indo, à espora leve. Ia desconhecidamente. Indo de oeste para leste. [...] 5 Com horas de diferença, a vaquinha providenciava. Aqui alta cerca a parou, foi seguindo-a, beira, beira. Dava num córrego. No córrego a vaquinha entrou, veio vindo, dentro d’água. Três vezes esperta. Até que outra cerca travou-a, ia deixando-a desairada. Volveu — irrompida ida: de um ímpeto então a saltou: num salto que queria ser voo. Vencia. [...] O rapaz, no vão do mundo, assim vocado e ordenado. Ele agora se irritava. Pensou de arrepender caminho, suspender aquilo para mais tarde. Pensou palavra. O estúpido em que se julgava. Desanimadamente, ele, malandante, podia tirar atrás. Aonde um animal o levava? O incomeçado, o empatoso, o desnorte, o necessário. Voltasse sem ela, passava vergonha. Por que tinha assim tentado? [...] De repente, ajustou a mão à testa, e exclamou. Do ponto, descortinou que: aquela. A vaquinha, respoeirando. Aí e lá, tomou-a em vista. [...] O rapaz, durante e tanto, montado no bom cavalo, à espora avante, galgando. Sempre e agudamente olhava. Podia seguir com os olhos como o rastro se formava. Só perseguia a paisagem. [...] O rapaz — desdobrada vida — se pensou: — “Seja o que seja.” [...] Iam-se, na ceguez da noite — à casa da mãe do breu: a vaca, o homem, a vaca — transeuntes, galopando. — “Onde então o Pãodolhão? Cujo dono? Vinha-se a qual destinatário?” [...] Chegava, chegavam. Os pastos da vasta fazenda. A vaca surgia-se na treva. Mugiu, arrancadamente. Remugiu em fim. A um bago de luz, lá, lá. Às luzes que pontilhavam, acolá, as janelas da casa, grande. Só era uma luz de entrequanto? A casa de um major Quitério. (Primeiras Estórias, 2008.) 1azamar: vermelhão. 2melros: uma espécie de ave brasileira. 3 querência: lugar onde o animal foi criado ou onde se acostumou a pastar, e para o qual volta, por instinto, se dali for afastado.
Destaca-se, na escrita de Guimarães Rosa, o uso de neologismos, como se verifica em:
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