Língua PortuguesaCrônica e contoFUNEC 2012
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Questão de Língua Portuguesa
O camarada que tinha acabado de chegar de Paris e – por sinal – com certa humildade, estava sentado numa poltrona, durante a festinha, quando a dona da casa veio apresentá-lo a um cavalheiro gordote, de bigodinho empinado, que logo se sentou a seu lado e começou a “boquejar” (como diz o Grande Otelo): - Quer dizer que está vindo de Paris, hem? – arriscou. O que tinha vindo fez um ar modesto: - É!!! - Naturalmente o amigo não se furtou ao prazer de ir visitar o Palácio de Versalhes. - Não. Não estive em Versalhes. Era muito longe do hotel onde me hospedei. - Mas o amigo cometeu a temeridade de não ficar no Plaza Athénée? O que não ficara no Plaza Athénée deu uma desculpa, explicou que o seu hotel fora reservado pela Cia. onde trabalha e, por isso, não tivera escolha. - Bem – concordou o gordinho -, o Plaza realmente é um pouco caro, mas é muito central e há outros hotéis mais modestos que ficam perto do Plaza. – E depois de acender um cigarro, lascou: - Passeou pelo Bois? - Passei pelo Bois uma vez, de táxi. 4 - Mas meu amigo vai me desculpar a franqueza; o amigo bobeou. Não há nada mais lindo do que um passeio a pé pelo Bois de Boulogne, ao cair da tarde. E não há nada mais parisiense também. - É... eu já tinha ouvido falar nisso. Mas havia outras coisas a fazer. - Claro... Claro... Há coisas mais importantes, principalmente no setor das artes – e sem tomar o menor fôlego: - Visitou o Louvre?... - Visitei. - Viu a Gioconda? Não. O recém-chegado não tinha visto a Gioconda. No dia em que esteve no Louvre, a Gioconda não estava em exposição. - Mas o senhor prevaricou - disse o gordinho, quase zangado. – A Gioconda só está em exposição às 5ªs e sábados e ir ao Louvre noutros dias é negar a si mesmo uma comunhão maior com as artes. Passou uma senhora, cumprimentou o ex-viajante e, mal ela foi em frente, nova pergunta do cara: - E a com ida de Paris, hem amigo? Você jantava naqueles bistrozinhos de Saint-Germain? Ou preferia os restaurantes típicos de Montmartre? Há um bistrô que fica numa transversal da Rue de... Mas não pôde acabar de esclarecer qual era a rua, porque o interrogado foi logo afirmando que jantara quase sempre no hotel. E sua paciência se esgotou quando o chato quis saber que tal achara as mulheres do Lido. - Eu não fui ao Lido também. O senhor compreende. Eu estive em Paris a serviço e sou um homem de poucas posses. Quase não tinha tempo para me distrair. De mais a mais, lá é tudo muito caro. - Caríssimo – confirmou o gordinho, sem se mancar. - O senhor, naturalmente, esteve lá a passeio e pôde fazer essas coisas todas – aventou, como quem se desculpa. Foi aí que o gordinho botou a mãozinha rechonchuda sobre o peito e exclamou: - Eu??? Mas eu nunca estive em Paris! ( PONTE PRETA, Stanislaw. Conversa de viajantes. In.: O melhor de Stanislaw. Rio de Janeiro, José Olympio, 1989.) 5
“Foi aí que o gordinho botou a mãozinha rechonchuda sobre o peito e exclamou: – Eu??? Mas eu nunca estive em Paris!” O efeito de humor presente no desfecho do conto deve-se a diversos fatores, EXCETO:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.
