Questões de Língua Portuguesa · FUNEC

Língua PortuguesaCrônica e contoFUNEC 2016

FUNEC

Questão de Língua Portuguesa

A árvore e a árvore Por vezes, caminhando pelas ruas da cidade, tenho a impressão de que as árvores conversam entre si. O diálogo das árvores nem sempre é ouvido pelos ouvidos, por causa do bulício das ruas, do rumor dos veículos e da zoeira das pessoas. E de madrugada, quando os últimos bêbados se recolhem trôpegos fugindo da aurora, e a brisa matinal leva o sono do rosto das operárias que marcham em direção às fábricas; é nesse momento fluido e tênue que pode ser captado o sussurro das árvores, em meio aos pipilos dos pardais alvoroçados. E lá estavam as duas árvores a conversar: — Bom dia, dona Magnólia! — Bom dia, dona Cássia! — Dormiu bem? 4 — Mais ou menos. Esta noite o bem-te-vi, meu inquilino, cismou de acordar e ficou discutindo com a bem-te-vi, no meu galho lá em cima. — Não diga! Discutindo o quê? — O papo de sempre, ora essa. Estavam reclamando do custo de vida. — Ué, mas passarinho também tem esse problema? Pensei que essa preocupação fosse apenas manha dos empregados da Prefeitura que vêm cortar nossa copa todos os anos. — Qual nada! Passarinho voa azucrinado. A própria bem-te-vi se lastima de que o galho onde eles moram quase não tem folhas; de noite ela molha a cabecinha no sereno. Ficou resfriada, a pobrezinha. — Então por que eles não se mudam? — Mudar para onde? — Ali adiante há um ipê-amarelo com vagas para passarinhos. — Pois sim. A senhora não viu a placa no tronco? Só há um galhinho vago, muito do mixuruco, e mesmo assim só se aceitam casais de passarinhos sem filhotes. — Sem filhotes? — Sem filhotes. — Mas isso é um absurdo! — Concordo, mas vai-se fazer o quê? Se até casas de tijolo são alugadas apenas para casais sem filhos. Fazem isso com as pessoas, vão ter consideração para com passarinho? — Escute, e ali na quaresmeira do outro quarteirão? — Ah, lá o aluguel é caríssimo. Só mora sabiá-depapo-amarelo e periquito verde. — Cruz-credo! — Falou bem. Está tudo pela hora da morte pros passarinhos. — Mas ouvi dizer que alguns têm boa mordomia... — Ah, os canários-da-terra... Grande vantagem! Têm alpiste importado, ovo cozido, verdurinha fresca todos os dias, mas, em compensação, vivem presos na gaiola. — Perderam a liberdade. — Desaprenderam até de voar! — Não é à toa que o bairro está cheio de chupim. — Claro, dona Magnólia. Chupim sempre se ajeita. Quem manda tico-tico ser bobo? — Reparou que ninguém acaba com chupim? Eles estão em tucum, paineira, sibipiruna. — Tem chupim até no pau-ferro. — Se adaptam a qualquer lugar. Bichinho aproveitador está ali. Sabe quando vão acabar com os chupins aqui na zona? . — Quando, dona Magnólia? — Dia de São Nunca. E enquanto isso, os bem-te-vis que se danem. — Ainda mais agora, com o aumento dos impostos. — Vai ser um horror. CARGOS — Horror mesmo. — Não sei como eles não se revoltam. — Revoltam nada. Bem-te-vi só sabe dizer: "Bem te vi! Bem te vi!". Viu, e daí? Que adianta ver? As árvores também vêem cada uma, mas não adianta reclamar. — Houve o caso daquela andorinha, está esquecendo? — A tolinha. Só porque morava em beiral, achava que podia modificar a situação. Uma andorinha só não muda coisa alguma. Bastou chegar aqui o tucano, deitou falação, disse que fazia e aprontava, tudo se amoitou. — Aquele tucano foi demais. Verde-amarelo, e bom de bico! — É, dona Magnólia, mas qualquer dia a árvore cai, não cai? — Sei lá. Ainda bem que a Prefeitura vai mandar plantar mais cem mil árvores na cidade. Só assim para resolver o problema da moradia dos passarinhos. — Tomara mesmo. Avise o bem-te-vi para ele aguentar a barra mais um pouco. Quem sabe, um dia, a bem-te-vi possa botar os ovinhos em paz. — Deus a ouça, dona Cássia. — Amém, dona Magnólia... (DIAFÉRIA.Lourenço.Em A morte sem colete. 4a ed. São Paulo: Moderna, 1983.)

De acordo com o TEXTO II, é INCORRETO inferir que:

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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.