Língua PortuguesaCrônica e contoVunesp 2026
FEMA
Questão de Língua Portuguesa
1 A senhora subiu, Deus sabe como, em companhia de dois garotos. Cada garoto com sua merendeira e sua pasta de livros e cadernos indispensáveis para a aquisição das preliminares da sabedoria. [...] O ônibus não cabia mais ninguém. A bem dizer, não cabia nem o pessoal que se espre mia lá dentro em estado de sardinha. Na massa compacta de gente, ou de seções de gente que a vista alcançava, percebi aquelas mãozinhas tentando segurar as pastas atochadas. — Deixa que eu carrego — falei na direção de um dos braços a meu alcance. Na qualidade de passageiro sentado, é irresistível minha inclinação para carregar embrulhos alheios. Estou sempre a oferecer préstimos, movido talvez pelo remorso de viajar sentado [...]. — Eu carrego pra vocês — insisti, executando um movi mento complicado, para enxergar os rostos dos garotos. O menor olhoume com surpresa e hesitação, porém o mais velho estendeu o braço, e o primeiro, depois de uma coto velada ministrada pelo segundo, imitouo. Fiquei de posse de duas bojudas pastas escolares, que acomodei da melhor maneira possível sobre os joelhos. Conheço perfeitamente a técnica de carregar embrulhos dos outros. Devese colocálos de tal modo que fiquem seguros sem que seja necessário pôr a mão em cima deles. São coisas sagradas. Não deve mos absolutamente lançarlhes um olhar, mesmo distraído. O perfeito carregador de embrulhos do próximo deve olhar para fora do ônibus, aparentemente observando um eclipse ou uma regata, porém na realidade com o pensamento fixo naquele pacote, ou bolsa, de que é depositário. Não vá a coisa cair no chão e quebrar. Não vá alguém subtraíla. Quando até a Santa Casa é assaltada, tudo é possível. Mas que con terá mesmo esse embrulho? Seria feio manifestar curiosidade, e perigoso abrir um volume que não nos pertence. Mas que gostaríamos de saber o que tem lá dentro, isto, humildemente o confesso, em meu nome e no do leitor, é pura, descarnada verdade. Bom, tratandose de pastas escolares, não havia segredo a descobrir. A voz da senhora saiu daquele bolo humano: 5 — Agradece ao moço, Serginho. Agradece, Raul. (Carlos Drummond de Andrade. 70 historinhas, 1998.)
No terceiro parágrafo, o narrador prioriza, sobretudo, a
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

