Questões de Língua Portuguesa · ACADEPOL MG

Língua PortuguesaEstratégias e tipos de argumentoACADEPOL MG 2005

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Questão de Língua Portuguesa

A mídia do medo Matei várias crianças quando era menino. A maioria com tiros de espoleta, brincadeiras de mocinho e bandido, possivelmente catárticas e comprovadamente inocentes. Já naquele tempo, o modelo eram os filmes americanos, que nos ensinaram uma infinidade de outras coisas - de beijar e fumar a empunhar uma espada. Como eram outros tempos, com menor, bem menor, quase nenhuma tensão urbana e motivos de sobra para uma despreocupação em relação ao futuro, inclusive o profissional, só excepcionalmente as crianças e os adolescentes das décadas de 40 e 50 se deixavam influenciar por tipos e atitudes mais condenáveis veiculados pelo cinema. [...] Mudaram as crianças e os adolescentes ou mudou o cinema? Na verdade, mudou tudo. Em casa, na rua e nas telas (no plural porque agora, além do cinema, temos a televisão e os computadores). As famílias perderam a coesão e o poder de aglutinação de antigamente, as cidades estão cada vez mais selvagens e desagregadoras, a educação caiu a níveis subterrâneos, as perspectivas de trabalho são quase nulas para determinadas faixas da população, e, se a esse conluio de fatores negativos acrescentarmos o consumo de drogas, o quadro estará quase completo. [...] Quanto às armas, cuja fácil e farta circulação entre os jovens tanto tem sido expiada nos últimos tempos, há que se resistir à tentação de demonizá-las inutilmente. Elas, afinal de contas, são objetos inanimados, cujos gatilhos precisam ser puxados por seres ditos racionais, movidos pelo prazer, pelo medo, pelo ódio, pela ambição ou pela loucura. Claro que facilitar o acesso a elas é um perigo, mas não é menos arriscado superestimá-las. De acordo com uma pesquisa conduzida pelo professor John Lott J r., da Universidade de Chicago, o percentual de armas em lares americanos pouco cresceu nos últimos 50 anos. O descuido e o laxismo dos pais, sim, devem ter crescido, mas, antes de exigir a proibição de compra e venda de armas, convém lembrar que Eric Harris e Dylan Klebold, os dois adolescentes que mataram 12 colegas e uma professora na Columbine High School de Littleton, também usaram explosivos, e nem por isso reivindicou-se que as aulas de química fossem banidas para sempre do currículo escolar. Ademais, para que proibir armas se o cinema e a televisão não se cansam de glorificá-las? [...] Que ninguém se iluda, o cinema, a televisão, a mídia e os videogames têm sua parcela de culpa na crescente brutalização da juventude. Qual, exatamente, ninguém sabe ainda. Sabe-se, porém, que a cada hora cinco atos de violência são cometidos no horário nobre da televisão americana. Ao atingir 18 anos, um adolescente americano terá visto 40 mil cenas de assassinatos nas telas de cinema e da TV. Não terá sido menor a dieta de truculência de um adolescente brasileiro. Leonard Eron, psicólogo da Universidade de Michigan, que há quatro décadas investiga os efeitos da violência dramatizada no cotidiano de crianças e adolescentes, acredita que a exposição permanente a imagens de truculência é a causa de 10% dos crimes cometidos na América - todos catárticos, nenhum inocente. “As crianças aprendem observando”, diz Eron. “Se o que observam é o violento, é isso que aprenderão.” Sete anos atrás, uma gangue inglesa torturou e matou uma garota com os mesmos requintes sádicos de uma cena de Brinquedo Assassino 3. O escritor Martin Amis saiu em defesa do filme na revista The New Yorker, argumentando que não sentira a menor vontade de matar alguém após vê-lo em vídeo. Eu também não, pois, a exemplo de Amis, não sou um desequilibrado nem um homicida em potencial - muito menos um adolescente com problemas afetivos mal resolvidos, incapaz de distinguir o real da ficção e de não se deixar corromper pela idéia, destilada até por filmes inteligentes como PuIp Fiction, de que matar e dar tiros, mais que aceitável, é cool, é divertido. Espero que já tenham explicado a Amis que defender a redução da violência gratuita na tela não é censurar, e sim colocar a responsabilidade social acima do lucro fácil e do cinismo. A responsabilidade social e a estética também. (Sérgio Augusto. Bravo!, jun. 1999.)

Marque a alternativa que contém o mais forte argumento do autor contra o desarmamento.

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