Língua PortuguesaNíveis de linguagem: formal e informalCOSEAC UFF 2024
Pref Maricá
Questão de Língua Portuguesa
Texto 3 A língua inglesa nunca teve academias para formular gramáticas oficiais e certamente seria afogado no Tâmisa ou no Hudson o primeiro que se atrevesse a tentar impor normas de linguagem estabelecidas pelo governo. Sua ortografia, que rejeita acentos e outros sinais diacríticos, é um caos tão medonho que Bernard Shaw deixou um legado para quem a simplificasse e lhe emprestasse alguma lógica apreensível racionalmente, legado esse que nunca foi reclamado por ninguém e certamente nunca será, apesar de algumas tentativas patéticas aqui e ali. Ingleses e americanos dispõem de excelentes manuais 15do uso da língua, baseados na escrita dos bons escritores e jornalistas — e, quando um americano quer esclarecer alguma dúvida gramatical ou de estilo, usa os manuais de redação de seus melhores jornais. A segregação racial nos Estados Unidos produziu um abismo linguístico entre a língua falada pelos negros e a usada pelos brancos. Durante muito tempo, a língua dos negros foi vista como uma forma corrompida ou degenerada da norma culta do inglês americano. Mas já faz tempo que essa visão subjetiva e etnocêntrica foi substituída e o inglês falado pelos negros passou a ser visto pela ciência linguística como black English, uma língua muito bem estruturada, com morfologia e sintaxes próprias, com sua gramática e sua funcionalidade autônoma, não mais como inglês de quinta categoria. E essa visão não foi acatada "de favor" ou para fazer 35demagogia com a coletividade negra, mas porque se tornou inescapável a existência de uma língua falada por ela, eficaz na comunicação de informação e emoção e que prescindia, sem que isso fizesse falta, de determinados recursos do inglês dominante. Todos nós, com maior ou menor habilidade, falamos várias línguas, ou dialetos, Advertir contra o preconceito sofrido por quem "fala errado" também não adianta nada, dentro da, digamos, língua-mãe. Falamos 100diante da força onipresente da norma culta. língua de criança, língua chula, língua de 45solenidade. Podemos não chegar a falar todas as muitas línguas à disposição, mas geralmente as entendemos, como, por (Aliás, no Brasil estamos sempre à frente e agora legislamos sobre preconceitos e tornamos ilegal ter preconceitos, quando isto é praticamente impossível, pois o possível é exemplo, quando ouvimos um caipira. Essas 105apenas tornar ilegal a manifestação do línguas, em padrões de variedade quase infinita, são todas legítimas, não são "erradas", pois, em rigor, nenhuma língua que funcione realmente como tal é "errada". E, muitas vezes, preconceito.). A fala é dos mais importantes recursos para o que se poderia chamar de reconhecimento social da pessoa. Vendo alguém pela primeira vez, fazemos, ao falarmos "certo", estamos na realidade 110conscientemente ou não, um julgamento falando inadequadamente, como um orador que, num comício no Mercado de Itaparica, se esbaldasse em proparoxítonas, polissílabos e mesóclises. Eu mesmo falo itapariquês de automático. Aprontamos uma ficha mental, avaliamos a roupa, a idade, o estado dos dentes e, inevitavelmente, a fala, através da qual é frequentemente possível saber a origem Mercado razoavelmente bem e alguns entre 115 e a extração social de um interlocutor eventual. vocês, se me ouvissem lá, talvez tivessem dificuldade em entender algo que eu dissesse, por exemplo, a meu amigo Xepa. Cientificamente, a neutralidade quanto a A norma culta, a dominante, a que é ensinada como correta, mostra sua cara imediatamente e se reflete logo na maneira pela qual o sujeito é percebido e tratado. Ferreira Gullar tem línguas, dialetos ou usos subsiste. Mas não 120 razão, a crase não foi feita para humilhar socialmente, e é isso o que me parece ainda 65estar sendo discutido em torno da propalada aceitação, pelo MEC, de erros de português. "Erro de português" é uma expressão que ninguém. Mas humilha o tempo todo. E agora, pensando aqui nessa tirania da norma culta, fico imaginando se ela não é empregada com esse fim, por certos fiscais dogmáticos. Não desagrada o linguista, porque ele não vê o 125 devia ser, porque, afinal, ela é necessária para fenômeno sob essa ótica. No entanto, é assim que o enxerga o público, mesmo o analfabeto, que aprende pelo ouvido a distinguir o certo do errado. Isto porque sempre se entendeu no preservar e aprimorar a precisão da linguagem científica e filosófica, para refinar a linguagem emocional e descritiva, para conservar a índole da língua, sua identidade e, consequen- Brasil que ensinar português é ensinar a norma 130temente, sua originalidade. Ao contrário do que culta, que, durante muito tempo, foi até mesmo 75ditada pelos usos de Portugal. Quer se queira quer não — e há séculos de formação por trás disso — a norma culta é tida entendi de certas opiniões que li sobre o assunto, a norma culta não tem nada de elitista, é ou devia ser patrimônio e orgulho comuns a todos. Elitismo é deixá-la ao alcance de como a correta e a única que representa 135poucos, como tem sido nossa política. verdadeiramente nossa língua. Sua violação é tolerada em manifestações literárias e artísticas de modo geral — e, assim mesmo, funciona mais quando o intuito é obter efeitos cômicos, ou "folclóricos", com essa violação. As pessoas costumam observar a adesão à norma culta no 85que ouvem e leem. Falar e escrever de acordo com ela é socialmente muito valorizado e resulta num poder de que a maioria não se sente boa detentora e ao qual todos aspiram. Não é questão linguística, é questão política. Não se trata de dizer aos que desconhecem a norma culta que a fala deles tem a mesma legitimidade, porque não adianta, não "cola” na sociedade. Trata-se de ensinar a esse praticante o pleno domínio da norma culta, a 95qual, mesmo tendo que absorver mudanças, nunca abdicará de sua hegemonia e é a de que ele vai precisar para subir na vida. RIBEIRO, João Ubaldo. In: O Globo, 1º. Caderno, Opinião, 29 maio 2011 – p. 7 (texto editado)
No quinto parágrafo, referindo-se à norma culta da Língua Portuguesa, João Ubaldo afirma que
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.