Língua PortuguesaCrônica e contoSUSTENTE 2023
Pref Igarassu
Questão de Língua Portuguesa
Texto 1 Há duas formas de marcar o tempo. Uma delas foi inventada por homens que amam a precisão dos números, matemáticos, astrônomos, cientistas, técnicos. Para marcar o tempo de forma precisa, eles fabricaram ampulhetas, relógios, cronômetros, calendários. Nesses artefatos técnicos, todos os pedaços do tempo – segundos, minutos, dias, anos – são feitos de uma mesma substância: números, entidades matemáticas. Não há inícios nem fins, apenas a indiferente sucessão de momentos, que nada dizem sobre alegrias e sofrimentos. Apenas um bolso vazio. Nele, a alma não encontra morada. Nas Olimpíadas, a performance dos corredores e nadadores é medida até os centésimos. Fico a me perguntar: “Como é que conseguem? Que diferença faz?”. A outra foi inventada por homens que sabem que a vida não pode ser medida com calendários e relógios. A vida só pode ser marcada com a vida. Os amantes do Cântico dos Cânticos marcavam o tempo do amor pelos frutos maduros que pendiam das árvores. Quando as folhas dos plátanos ficam amarelas sabemos que o outono chegou. Os ipês-rosas e amarelos anunciam o inverno. Qual a magia que informa os ipês, todos eles, em lugares muito diferentes, que é hora de perder as folhas e florescer? E sem misturar as cores. Primeiro os rosas, depois os amarelos e, finalmente, os brancos. Sugeri que algum compositor compusesse uma sinfonia ou uma brincadeira musical em três movimentos. Primeiro movimento, “Ipê-rosa”, andante tranquilo, em que os violoncelos cantam a paz e a segurança. Segundo movimento, “Ipê-amarelo”, rondo vivace, em que os metais, cores parecidas com a dos ipês, fazem soar a exuberância da vida. Terceiro movimento, “Ipê-branco”, moderato, em que o veludo dos oboés cantam a mansidão. Seria bom se nós, como os ipês, nos abríssemos para o amor no inverno. A precisão dos números marca o tempo das máquinas e do dinheiro. O tempo do amor se marca com o corpo. (...) Heráclito foi um filósofo grego fascinado pelo tempo. Contemplava o rio e via que tudo é rio. Percebeu que não é possível entrar duas vezes no mesmo rio; na segunda vez, as águas serão outras, o primeiro rio já não existirá. Tudo é água que flui: as montanhas, as casas, as pedras, as árvores, os animais, os filhos, o corpo… Assim é tudo, assim é a vida: tempo que flui sem parar. Daquilo que ele supostamente escreveu, restam apenas fragmentos enigmáticos. Dentre eles, um me encanta: “Tempo é criança brincando, jogando; da criança o reinado”. Para nós, o tempo é um velho, cada vez mais velho, sobre quem se acumulam os anos que passam e de quem a vida foge. Heráclito, ao contrário, diz que o tempo é criança, início permanente, movimento circular, o fim que volta sempre ao início, fonte de juventude eterna, possibilidade de novos começos. Tempo é criança? O que o filósofo queria dizer exatamente eu não sei. Mas sei que as crianças odeiam Chronos, o deus dos cronômetros, dos segundos, dos centésimos de segundos. O relógio é o tempo do dever: corpo engaiolado. Rubem Alves, do livro “Do universo à jabuticaba”. São Paulo: Editora Planeta, 2010. As questões de 01 a 08 referem-se ao texto 1.
O texto, em análise, é literário. Este tipo possui características diferentes de outros tipos não classificados como literários. Características dele se encontram nas assertivas: I. Trata-se de uma crônica, pertinente ao tipo narrativo. II. Emprega-se, em geral, um tipo de linguagem chamada conotativa. III. Pertence ao tipo dissertativo e vem, normalmente em periódicos. Está (ão) correta (s) apenas:
Mais questões de Crônica e conto
- CONSULTEC (AIETEC) 2026No trecho de “O espelho”, a transformação vivida pelo narrador-personagem é construída por meio da mudança no modo como ele passa a ser reconhecido pelos outros. A análise dessa t…
- Instituto AOCP 2026No início da crônica (Texto 2), ao transformar-se em humana, a barata formula os pensamentos: “[...] que vergonha, estou nua!” e “[...] que horror! Preciso me livrar dessas barata…
- Avança SP 2026É correto afirmar que, no texto “O estômago e o pés”:
- FACAPE 2026“Só nos tornamos adultos quando perdemos o medo de errar. Não somos apenas a soma das nossas escolhas, mas também das nossas renúncias. Crescer é tomar decisões e depois conviver…
- UNESC 2026O conto encerra com a frase: "Um sopro de vento passou por eles. Já eram amigos: moviam juntos o mesmo sonho." Nesse sentido, analise as afirmativas abaixo e assinale a alternativ…
Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.
