Língua PortuguesaInterpretação de textosCMRJ 2005
CMRJ
Questão de Língua Portuguesa
Texto 3 Brasil de duas faces A imagem do Brasil atual é a da moeda, não no que tem esta de valor, mas de duplicidade: um símbolo de duas faces, a cara e a coroa, que faz lembrar o deus romano Janus, com seus dois rostos em oposição – o deus das portas, das entradas e saídas, dos começos e dos fins, das mudanças e transições, da progressão do passado para o futuro, de uma condição a outra, de um modo de ver para outro modo de ver. Pois é exatamente assim este nosso Brasil bifronte, com suas faces opostas e a bem dizer antagônicas. Nada aqui é unívoco, unilateral, unitário; tudo admite uma segunda hipótese, uma alternativa, um sucedâneo, uma contrafação. Vejam só: ontem um deputado foi acusado de embolsar R$4 milhões destinados a seu partido sem dizer o que fizera deles. Levado à execração pública, o legislador fraudatário elabora um esquema de denúncias que explode como um vulcão de lama, colocando em cheque todos os seus detratores e elevando-o à condição de herói nacional, o que teve a coragem e a ousadia de denunciar a corrupção do poder que se alastrava, subterrânea, sem o conhecimento do público. Um ministro todo-poderoso, contra o qual só havia acusação de carregar nos erres e omitir o “u” do verbo roubar, cuja face de uma algidez britânica, incapaz de deixar transparecer qualquer tipo de emoção, denotava sua seriedade na condução dos destinos do país, de repente é derrubado de seu pedestal majestoso, sob a acusação de ser o mentor de todo o esquema corrupto. Um fuinha careca, com pinta de vendedor de seguros, que se apresentava como simples publicitário, de repente é guindado à condição de articulador-mor das tramóias políticas, manobrando quantias inimagináveis e- pasmem! – representando o presidente da República em “negociatas” no exterior. A secretária do dito, num rasgo de patriotismo (sic.), resolve denunciar as manobras ilícitas munida de uma implacável agenda que cala a boca de todos os que tentam desqualificá-la. Mas ela própria, semanas depois, aparece em nova seção de depoimentos com os cabelos pintados de acaju e confessando ter aceitado uma proposta para posar nua para a revista Playboy. Deputados da mais sórdida extração, conhecidos pelas arbitrariedades que cometeram em seus respectivos redutos eleitorais, aparecem nas CPIs ( ou melhor, diante das câmeras de televisão que cobrem as CPIs) transformados em verdadeiras vestais, dispostos a dar seu sangue para salvar a imagem do poder. A face do Brasil que permanecia rigidamente voltada para o que achavam de mais sagrado - o futebol – de repente se volta (ou mostra a outra face) interessada no desdobramento desses mil e um inquéritos que prosseguem cada vez mais reveladores e escandalosos sem, no entanto, chegar, até agora, a nenhum resultado positivo. Nosso Presidente, que nada tem a ver com isso, que, aliás, não está nem aí, continua em campanha política, no que faz (ou o que faz) muito bem. E o Brasil está parado, na expectativa de que leis importantes sejam votadas, de que medidas de urgência sejam postas em prática, com greves pipocando por todos os lados, hospitais sem as condições mínimas de funcionamento, pequenos burocratas até então corretos deixando-se corromper pelos exemplos que lhes vêm de cima... O país parece um navio que soçobra: ratos de todos os tamanhos e partidos estão deixando o casco, refugiando-se nas renúncias e negociando cassações. Ah! Brasil bifronte, Janus tropical: aquele deputado do princípio é hoje o nosso maior tribuno, apesar de seus cacoetes histriônicos; mas, se escapar do cerco que lhe movem pode vir a ser uma ameaça eleitoral ao próprio Lula... Na fila do gargarejo, até mesmo sem pipoca, aguardamos ansiosos – nós que votamos neles – para saber quem é mesmo o maior ladrão do país. Ivo Barroso, Caderno B. Jornal do Brasil Sábado, 06/08/2005.
Se transformássemos o texto em uma narrativa, os personagens citados teriam características de:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.
