Questões de Língua Portuguesa · IBGP

Língua PortuguesaNíveis de linguagem: formal e informalIBGP 2024

Pref Rib das Neves

Questão de Língua Portuguesa

INSTRUÇÃO: Leia o excerto da entrevista com Conceição Evaristo, para responder as questões de 1 a 6. Conceição Evaristo: a escrevivência das mulheres negras reconstrói a história brasileira Por Morgani Guzzo / Portal Catarinas (28 jul 2021) Catarinas – A senhora é referência na literatura brasileira contemporânea, especialmente por colocar a escrita das mulheres negras em um patamar de maior visibilidade e reconhecimento. Como foi o seu contato com a literatura e o que lhe levou à escrita? Conceição Evaristo – O meu primeiro contato com a literatura, eu tenho afirmado com ênfase e bastante orgulho, é com uma literatura oral. Eu não nasci rodeada de livros, eu nasci rodeada de palavras. Meu contato foi com a literatura oral, com a contação de histórias, com a fabulação do dia a dia, as coisas que aconteciam e poderiam virar história porque sempre uma pessoa conta de uma maneira, outra pessoa conta de outra. No ambiente familiar tem muito isso. "Ah, não foi isso não", aí retoma o assunto, aumenta um pedacinho. Então essa constante presença da palavra em casa, da palavra dita e também dramatizada – meu tio velhinho contava histórias, se o personagem morria esse meu tio se jogava no chão. Esse convívio com o texto oral me foi muito benéfico. Ao mesmo tempo que tinha essa riqueza da oralidade, tinha uma curiosidade muito grande pelo material impresso. Minha mãe pegava revistas, jornais velhos, e brincávamos. Hoje eu vejo que a gente fazia uma oficina da palavra. Por exemplo, se a gente via uma imagem de uma mulher e ela tivesse com uma expressão triste, minha mãe, na brincadeira, fazia um jogo: "será que ela está triste? O sapato dela está apertado?" E aí vinha aquela brincadeira toda. Essa brincadeira em torno do material impresso despertou a curiosidade para a leitura. E como a minha mãe, naquele momento, lia, a minha tia, que me criou, também lia muito, então isso também incentivou, criou esse desejo do livro, da escrita. E como o livro era um material muito distante da realidade da gente, aquilo que é distante às vezes se torna o objeto mais desejante ainda, é aquilo que você quer. Depois, quando eu chego na escola e tenho esse contato com a biblioteca, aí eu me encanto. Eu fiz o primário em uma escola muito boa, em que tinha muito incentivo para a leitura, para a escrita, o grupo Barão do Rio Branco, em Belo Horizonte. E há um momento em que uma das minhas tias vai ser servente na Biblioteca Pública de Minas Gerais, de Belo Horizonte. Ela trabalhava na casa da Dona Etelvina, Etelvina Vianna Lima, que foi inclusive a que instituiu o curso de Biblioteconomia na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), e minha tia trabalhava com ela. Parte do dia a minha tia cumpria as funções domésticas, outra parte do dia ela ia para a biblioteca – era aquela pessoa que ficava sentada ali encarregada de guardar as bolsas de quem chegava. Aí, eu digo, nesse momento eu ganho uma biblioteca inteira, porque eu tinha livre trânsito nessa biblioteca, era como se a minha tia fosse dona dela. Essa biblioteca ficava perto da Praça da Liberdade. Eu ia à biblioteca, pegava os livros, vinha para a praça, sentava na praça, lia, devolvia, às vezes no mesmo dia. É assim que o texto escrito entra na minha vida, e entra com muita potência, com muito desejo, muito encantamento. Eu tinha um encantamento pelo livro, pela leitura. E curiosidade. Eu era muito curiosa. E a escrita, como ela se dá? A escrita se dá também nessa época. Quando eu já ganho a competência da escrita, e essa escola Barão do Rio Branco, na minha época tinha algo que se chamava "composição". Então tinha que fazer muitas composições. E também, por exemplo, essa minha tia que lia, ela tinha muita necessidade de anotar. Ela anotava acontecimentos diários, por exemplo, a galinha garnisé botou hoje não sei quantos ovos; paguei a prestação da minha máquina; dei a minha contribuição para a capelinha Nossa Senhora do Rosário, então esse exercício do registro me incentivou também na escrita. E quando eu termino o primário eu ganho um Prêmio de Redação, que eu digo que foi o meu primeiro prêmio de literatura. Que importância tem a literatura e a escrita na sua vida? À medida em que eu entro na adolescência, a escrita passou a ser pra mim um lugar de eu desaguar todas as minhas dúvidas, tanto é que eu tinha um diário. E aí a escrita entra muito como um suporte. Eu acho que a adolescência que eu tive, que é uma adolescência também de extrema pobreza, de muitas interrogações, de muitas dificuldades, já vivendo mesmo a questão racial, que eu estudava numa escola onde a maioria era de alunas e alunos brancos, então algumas coisas pra mim, eu não tinha resposta, aliás, nada eu tinha resposta, eu sabia que alguma coisa estava fora do lugar, mas eu não sabia o que, onde, como. E a escrita entra como exercício de falar dessas coisas fora do lugar, de indagar essas coisas, de fugir dessa realidade, mas, ao mesmo tempo, me potencializar pra enfrentar a realidade. Eu acho que se eu não escrevesse e não lesse na adolescência, eu fico sempre achando que eu adoeceria, do ponto de vista emocional. Eu acho que eu surtaria. E hoje ainda é assim? Talvez como um suporte, me ajuda a estar de pé. Porque se eu não escrevesse… eu não sei dançar, não sei cantar, então a escrita, pra mim, é o modo como eu acesso o mundo, como eu acesso a vida. Disponível em: https://catarinas.info/conceicao-evaristo-a-escrevivencia-das-mulheres-negras-reconstroi-a-historia-brasileira. (Adap.) Acesso em 03 mai. 2024.

No trecho "se a gente via uma imagem de uma mulher", a expressão destacada marca a presença de um/uma:

Sua resposta

Mais questões de Níveis de linguagem: formal e informal

Ver as 1.153 questões de Níveis de linguagem: formal e informal

Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.