Língua PortuguesaCrônica e contoVunesp 2026
Humanitas
Questão de Língua Portuguesa
1 Tendo lido numa revista espanhola interessante artigo sobre a psicologia das dedicatórias, ocorreu-me lembrar o assunto. […] Não é que o escritor tenha lá uma mentalidade mais complicada ou enrustida que o comum dos mortais. Não. Ele é, como toda gente, um ser dotado de sentimentos bons e maus, inclinações contraditórias, ambições e desejos próprios ao ser humano em geral. Mas enquanto as outras pessoas manifestam seu temperamento e caráter nas oportunidades do trato diário, sem maior preocupação de fazê-lo, o escritor, pelo fato de fazer da escrita uma profissão e um trabalho de arte, se torna mais exigente consigo mesmo nas relações escritas. Pensa duas vezes antes de compor uma linha, e três antes de entregá-la ao impressor. Este cuidado se estende, imperceptivelmente, às linhas não propriamente literárias, e uma dedicatória, como uma carta, assume ares de texto importante. Como se o autor pensasse (e quase sempre pensa isso mesmo): — Quando eu ficar célebre, este bilhetinho ou esta dedicatória vai ser conservada em museu. Vamos caprichar! Há especialistas em dedicatórias brilhantes, antológicas, por assim dizer. Outros são cautelosos. […] 5 Há tempos, andei catando e copiando algumas […]. E, logo de saída, fiquei mais uma vez de queixo caído diante da mais original, da mais imprevista entre as dedicatórias já feitas em língua portuguesa. Dedicatória, não de um literato a outro, nem de um literato a um amigo ou leitor. Mas de um autor já morto a... um verme. Todos já perceberam que me refiro à dedicatória das Memórias póstumas de Brás Cubas, que Machado de Assis, em nome do suposto autor do romance, redigiu […]. (Carlos Drummond de Andrade. Amor nenhum dispensa uma gota de ácido, 2019.)
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

