Questões de Psicologia · Legalle

PsicologiaEstresse, enfrentamento e resiliênciaLegalle 2025

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Questão de Psicologia

A abundância de textos de autoajuda estigmatizou autores que pensam a felicidade como superficiais “A felicidade, seja lá o que ela for, não depende de a vida e o mundo terem um sentido no qual eu acredite. Ao contrário, se a vida tiver um sentido fora dela, nas nuvens do paraíso ou dos sonhos, onde vivem as utopias sociais, suspeito que a gente se distrairia dela. E não sei se existe uma chance de viver uma vida plena sem destinar a esse projeto toda a nossa atenção”. Contardo Calligaris refletiu sobre isso no livro O Sentido da Vida (ed. Planeta do Brasil). Ele repetia que a vida interessante valia mais do que aquilo que o senso comum chamava de vida feliz. Debati muito com Contardo, há alguns anos, o que seria a vida feliz, ou, como preferia Luc Ferry, a “vida bem-sucedida”. Um dia, do nada, tudo emergiu de novo 15 anos após o falecimento de Calligaris. Fui fazer a omelete tradicional e, ao abrir a caixa de ovos, recebi a informação de que aquele produto tinha origem em “galinhas felizes”. Sim, deveriam ser ovos alegres de galinhas marcadas pela ventura da felicidade. Fiquei hipnotizado pela caixa e seus objetivos de mercado. A felicidade parecia cumprir a velha profecia marxista de que, no futuro, tudo seria transformado em mercadoria. Conheci Gustavo Arns em um congresso sobre felicidade. Admirava seu tio cardeal e sua tia Zilda há anos. Gustavo se dedica a pesquisar o vasto campo que cruza informações sobre a felicidade. As perguntas são muitas e têm sido exploradas nos EUA. O que seria felicidade? Como as pessoas sentem que são felizes? Quais os obstáculos a uma vida feliz? Existem atitudes que favorecem a felicidade? Eu leio sobre felicidade na Filosofia e na História. Quase todos os grandes pensadores, de Aristóteles a Montaigne, de Nietzsche a Sartre, trataram do conceito de felicidade. Nos últimos anos, a abundância de textos de autoajuda acabou trazendo o estigma de que quem pensa felicidade é um autor superficial que vende fórmulas. Na verdade, junto a recortes como teoria do conhecimento, ética, estética e política, a felicidade é um dos grandes temas da Filosofia Clássica. E, claro, também é alvo de imensas reflexões de religiosos e de autores de autoajuda. Um dia, eu e Gustavo decidimos juntar nossos saberes e experiências em uma experiência nova. Passamos a trocar mensagens longas de WhatsApp. Eu estava, como sempre, andando pelo Brasil. Gustavo chegou a escrever da Índia. Cada mensagem trazia uma ideia e um convite ao debate. Partimos das galinhas felizes e fomos concordando e discordando ao longo de alguns meses. Era, a rigor, um romance epistolar, aquele tipo de livro que parece troca de cartas. O nosso era troca de zap. Terminada a experiência, transformamos tudo em livro: O Dilema das Galinhas Felizes (Record). Em um trecho, Gustavo redigiu: “Nesse cenário temos o crescente interesse científico pela felicidade e o bem-estar. No final dos anos 90, um psicólogo estadunidense chamado Martin Seligman assume a presidência da associação norte-americana de psicologia e faz um grande chamado aos psicólogos. Ele percebeu que, ao longo da sua história a psicologia tinha basicamente se dedicado ao estudo das doenças depressão, estresse, ansiedade, esquizofrenia, etc. e muito pouco em compreender o lado positivo da vida humana. Surge, nesse momento, um campo de estudo dentro da psicologia chamado psicologia positiva, que passa a investigar a felicidade como objeto de estudo científico”. Durante nossas conversas, eu questionei Gustavo várias vezes sobre as pesquisas e metapesquisas com que ele trabalhava e até se ele era feliz por ter tido amparo sólido dos pais, ser bem casado e ter uma filha linda, ou seja, se ele tinha lugar de fala para pensar quem não é feliz. Gustavo seria o caso de quem é feliz por ter tido bônus materiais e afetivos? Debatemos, com liberdade, tudo o que o outro dizia. Foi uma experiência boa do ponto de vista pessoal e intelectual. Os pessimistas sempre pareceram mais profundos. Imersos no mundo desafiador e por vezes trágico, sempre achamos que as comédias de Aristófanes são inferiores às tragédias de Sófocles; que o drama de Dostoievski é forte porque está imerso na dor; que Hamlet é maravilhoso e superior a As Alegres Comadres de Windsor. O riso chegou a ser considerado satânico pelo venerável Jorge, o azedo beneditino cego (O Nome da Rosa, Umberto Eco). Jesus, afinal, chorou muitas vezes e nunca houve um evangelho que falasse do riso de Cristo. Imagino o Messias na festa de casamento em Caná ou comendo na casa de Zaqueu. Estaria sempre de cara fechada? Aqui nós temos a dimensão da nossa desconfiança da leveza, ou da alegria, ou até da felicidade que vai além das virtudes anteriormente citadas. Afinal, temos uma cultura que promove com intensidade a Sexta-Feira Santa e com menos ardor o Domingo de Páscoa. O livro debate a consciência sobre felicidade e infelicidade, sem oferecer um passo a passo ou algum decálogo para ser mais feliz. A filosofia tenta entender, a ciência tenta medir, o mercado tenta vender. Talvez o que reste a nós, humanos, seja continuar tentando – com alguma esperança. Autor: Leandro Karnal – Estadão (adaptado)

O texto descreve o surgimento da psicologia positiva e a mudança epistemológica proposta por Martin Seligman. Considerando esse excerto, assinale a alternativa INCORRETA.

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