Língua PortuguesaSignificação de palavras e expressões em contextoCOPS UFLA 2016
UFLA
Questão de Língua Portuguesa
1 Vários leitores me escreveram para acusar os "tempos modernos", em que "ter" é mais importante do que 2 "ser". 3 Hoje, o que temos nos define, à condição, claro, de ostentá-lo o suficiente para que os outros saibam: 4 constatando nossos "bens", eles reconheceriam nosso valor social. Essa seria a razão da cobiça de todos e, em última 5 instância, da facilidade com a qual todos nos tornamos criminosos. 6 A partir dessa constatação, alguns de meus correspondentes tentam explicar uma diferença entre ricos e 7 pobres em matéria de crime. O argumento básico funciona mais ou menos assim: 1) para ser alguém, na nossa 8 sociedade, é preciso ter e ostentar bens, 2) quem vale menos na consideração social (o desfavorecido, o excluído, o 9 miserável) teria um anseio maior de conquistar aqueles bens que aumentariam seu valor aos olhos dos outros. Em 10 suma, precisamos ter para ser – e, se formos pouco relevantes ou invisíveis socialmente, só poderemos querer ter 11 mais e com mais urgência. 12 À primeira vista, faz sentido. Mas, antes de desenvolver o raciocínio, uma palavra em defesa da 13 modernidade. Tudo bem, uma sociedade em que as diferenças são decididas pelo "ter" (vale mais quem tem mais) 14 pode parecer um pouco sórdida. Acharíamos mais digna uma sociedade na qual valeria mais quem "é" melhor, não 15 quem acumulou mais riquezas. 16 O problema é que, em nosso passado recente, as sociedades organizadas pelo "ser" já existiram, e não 17 foram exatamente sociedades para onde a gente voltaria alegremente – eu, ao menos, não gostaria de voltar para 18 lá. Geralmente, uma sociedade organizada pelo "ser" é uma sociedade imóvel. Por exemplo, no antigo regime, você 19 podia nascer nobre, perder todos os bens de sua família, inclusive a honra, e continuaria nobre, porque você já era 20 nobre. Inversamente, você podia nascer numa sarjeta urbana e enriquecer pelo seu trabalho ou pela sua sabedoria, 21 e nem por isso você se tornaria nobre, porque você não o era. Ou seja, em matéria de mobilidade social, as 22 sociedades nas quais o que importa é o "ser" são sociedades lentas, se não paradas, e as sociedades nas quais o que 23 importa é o "ter" são sociedades nas quais a mudança é possível, se não encorajada. 24 É bom lembrar disso quando criticamos nossa "idolatria" consumista ou nossa vaidade. Podemos sonhar 25 com uma sociedade organizada pelas qualidades supostamente intrínsecas a cada um (haveria os sábios, os 26 generosos, os fortes etc.), mas a alternativa real a uma sociedade do "ter" são sociedades em que castas e dinastias 27 exercem uma autoridade contra a qual o indivíduo não pode quase nada. Voltemos agora à observação de que, 28 numa sociedade do "ter" como a nossa, os que têm menos seriam, por assim dizer, famintos – e, portanto, 29 propensos a querer a qualquer custo. Eles recorreriam ao crime porque sua dignidade social depende desse "ter" – 30 para eles, ter (como navegar) é preciso. 31 Agora, o combustível de uma sociedade do "ter" é uma mistura de cobiça com vaidade. Por cobiça, 32 preferimos os bens materiais a nossas eventuais virtudes, mas essa cobiça está a serviço da vaidade. A riqueza que 33 acumulamos não vale "em si", ela vale para ser vista e reconhecida pelos outros: é a inveja deles que afirma nossa 34 desejada "superioridade". Em outras palavras, os bens que desejamos são indiferentes; o que importa é o 35 reconhecimento que esperamos receber graças a eles. Por consequência, nenhum bem pode nos satisfazer, e a 36 insatisfação é parte integrante de nosso modelo cultural. 37 Não é que estejamos insatisfeitos porque nos falta alguma coisa (aí seria fácil, bastaria encontrá-la). Somos 38 (e não estamos) insatisfeitos porque o reconhecimento dos outros é imaterial, difícil de ser medido e nunca 39 suficiente. A procura por bens é infinita ou, no mínimo, indefinida, como é indefinida a procura pelo reconhecimento 40 dos outros. Os bens que conquistamos (roubando ou não, tanto faz) não estabelecem nenhum "ser", apenas 41 alimentam, por um instante, um olhar que gratificaria nossa vaidade. 42 Não existe uma acumulação a partir da qual nós nos sentiríamos ao menos parcialmente acalmados em 43 nossa busca por esse reconhecimento. Ao contrário, é provável que a cobiça e a vaidade cresçam com o "ter". Ou 44 seja, é bem possível que a tentação do crime seja maior para quem tem mais do que para quem tem menos. 1 Contardo Calligaris Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2015/05/1634384-ter-mais-e-ter-menos.shtml>. Acesso em: 29 jul. 2016. (Adaptado). Página
Leia o fragmento: “Hoje, o que temos nos define, à condição, claro, de ostentá-lo o suficiente para que os outros saibam: constatando nossos "bens", eles reconheceriam nosso valor social.” (Linhas 3-4). O emprego do termo “hoje”:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

