Língua PortuguesaDiscurso direto, indireto e indireto livreUNIVIDA 2026
CIS-COMCAM
Questão de Língua Portuguesa
Rótulo de alimento como romance de ficção Eu entrei no mercado querendo comprar “algo saudável”. Essa frase, por si só, já é perigosa, porque “saudável” no supermercado não é um conceito. É um gênero literário. E o rótulo é a capa do livro. Peguei um pacote que prometia uma vida melhor em três palavras: “integral”, “fit” e “natural”. A embalagem tinha folhas verdes, uma família sorrindo e um desenho de grão que parecia ter saído de férias. Virei o pacote e fui ler os ingredientes. Foi aí que percebi que eu não estava comprando comida. Eu estava lendo uma novela. Capítulo 1: “Ingredientes”. Começa sempre inocente, com dois ou três nomes que você reconhece. Aí, do nada, o texto fica sofisticado, como se quisesse te intimidar: “maltodextrina”, “aromatizante idêntico ao natural”, “emulsificante INS-qualquer-coisa”. Eu gosto quando aparece “estabilizante”, porque passa uma segurança emocional. Se estabiliza o produto, talvez estabilize minha vida. Capítulo 2: “Pode conter”. Essa parte é o suspense. “Pode conter traços de…” e aí vem uma lista que parece uma reunião de condomínio. Leite, soja, amendoim, trigo, castanhas, vontade de desistir. Eu imagino o alimento olhando para mim e dizendo: “não tenho certeza de quem eu sou, mas já aviso que posso ter convivido com pessoas complicadas”. Capítulo 3: “Zero”. Essa é a poesia. “Zero açúcar”, “zero gordura trans”, “zero culpa”. Só que, se é zero de um lado, é “mais alguma coisa” do outro. O rótulo tem uma habilidade incrível de tirar um vilão do palco e colocar outro, discretamente, nos bastidores. Você compra “zero açúcar” e leva “xarope de glicose”, que é basicamente açúcar de terno. E tem o personagem mais perigoso de todos: “sabor”. “Sabor morango”. Eu, adulto, sei que aquilo viu morango de longe e ficou inspirado. Mesmo assim, eu acredito. Porque a embalagem não vende morango. Ela vende a versão emocional do morango. A melhor parte é a tabela nutricional. Ela parece séria, matemática, irrefutável. Só que aí entra o truque narrativo: “porção de 30g (2 unidades)”. Duas unidades. Quem come duas unidades? Isso é rótulo para gente que vive em comercial de margarina e tem autocontrole regulamentado. No corredor, eu percebi: ler rótulo é um ato de autodefesa e também um teste de interpretação. Tem palavra que é informação e palavra que é marketing disfarçado de verdade. “Fonte de fibras” não significa “boa escolha”. “Natural” não significa “simples”. “Artesanal” não significa “pouco processado”. Às vezes significa só “caro”. No fim, eu comprei um iogurte “tradicional”. Virei e li: leite, fermento, pronto. Foi o texto mais curto e mais honesto do mercado. Saí com a sensação rara de ter comprado comida, e não um romance com final aberto. Fonte: BANCA EXAMINADORA
Na passagem “Capítulo 2: ‘Pode conter’… ‘Pode conter traços de…’”, o narrador reproduz palavras do rótulo e as integra ao efeito de suspense. Nessa passagem, o procedimento predominante é o:
Mais questões de Discurso direto, indireto e indireto livre
- Consulplan 2026De acordo com a narrativa apresentada, pode-se compreender que:
- IGEDUC 2026As formas de inserção da fala de personagens no texto narrativo interferem na organização da enunciação e na construção do ponto de vista. A tradição gramatical reconhece modalida…
- IGEDUC 2026Assinale a alternativa que apresenta discurso indireto.
- FCC 2026Perguntou ao cocheiro: “Aonde vamos?” (2º parágrafo) Ao se transpor o trecho acima para o discurso indireto, o verbo sublinhado assume a seguinte forma:
- FUNATEC 2026O discurso direto livre caracteriza-se, principalmente, pela:
Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.
