Língua PortuguesaHipérbole, eufemismo e gradaçãoPROGEP FURG 2017
FURG
Questão de Língua Portuguesa
CONCURSO PARA TÉCNICO ADMINISTRATIVO / 2017 – TEXTO A mentira como matéria prima Por Paulo José Cunha, em 17/03/2017, na edição 93 01 É fácil perceber o desastre resultante da associação entre a incapacidade de 02 distinguir notícia falsa e a proliferação, em escala planetária, de noticiário 03 mentiroso, criado com a finalidade de alavancar o ganho pessoal dos donos de 04 sites por meio do reforço a 05 fundamentalistas. convicções ideológicas e/ou religiosas 06 Tal fato ocorre de forma vertiginosa e devastadora em toda parte onde chega sinal 07 de internet. A resultante desse coquetel é uma mistura de desinformação, 08 preconceito, intolerância, incompetência para a escolha consciente e incapacidade 09 de autodeterminação. Ou seja, o contrário das bases para o bom funcionamento do 10 sistema democrático. 11 Pesquisa da Universidade de Stanford, realizada com 7.804 estudantes americanos 12 dos ensinos fundamental, médio e superior, concluiu que é “lamentável” a 13 capacidade dos jovens de processar corretamente informações divulgadas nas 14 redes sociais. Sam Wineburg, que conduziu o estudo, afirmou: “Muita gente 15 acredita que os jovens, bem ambientados nas mídias sociais, têm perspicácia para 16 compreender o que leem. Nosso trabalho mostra que o oposto disso é verdadeiro”. 17 Num dos testes, os estudantes deveriam analisar uma publicação com a foto de 18 uma flor supostamente modificada pela radiação da usina de Fukushima, atingida 19 pelo tsunami de 2011. A publicação não trazia fonte ou indício de que a foto havia 20 sido tirada perto da usina nem evidência de que a flor havia sido modificada pela 21 radiação. Ainda assim, 40% acreditaram na veracidade por achar que havia 22 informação suficiente para lhe dar crédito. 23 Matéria do Washington Post revela que Paris Swade e Danny Gold, donos de um 24 site direitista radical de notícias falsas, orgulham-se – sim, orgulham-se!, sem 25 qualquer sinal de remorso – de praticar “imprensa marrom”. Até os nomes que os 26 dois usam são falsos. Para ganhar caminhões de dinheiro, precisam de um laptop e 27 de um sofá para escrever e acompanhar a viralização dos posts. Na última eleição, 28 todos os candidatos republicanos investiram grana preta no site deles. O ex- 29 garçom Paris Swade não diz quanto ganha. Mas, admite que teria de ralar cinco 30 anos pilotando uma bandeja para conseguir ganhar o que embolsou em apenas seis 31 meses afagando o ego da extrema-direita com notícias inventadas. 32 Onda de descrédito 33 Em sua primeira “matéria”, inventou que, segundo uma fonte anônima, um 34 cientista da Coreia do Norte fugira do país com dados sobre experiências com 35 humanos. Na falta de uma imagem mais “real”, achou a foto de uma massa de 36 carne e postou: “Coreia do Norte: experimentos em humanos”. Em dez minutos, 37 ganhou U$120,00. Nunca mais parou de mentir. Nem de ganhar carradas de 38 dinheiro. Os dois não são religiosos, mas, como isso funciona, pedem que Deus 1 39 abençoe Trump. E tome notícia falsa como: “Segredos que envolvem o 40 nascimento de Obama revelados. Cartas do pai dele revelam algo de sinistro!” 41 O fenômeno é avassalador e se espalha sem qualquer controle ou contraponto. 42 Afinal, a internet é terra de ninguém. Não se sujeita a qualquer regulação. Antes 43 que os arautos da censura se apresentem, é bom deixar claro que é assim que deve 44 continuar! 45 Com a onda de descrédito que assola a imprensa de mercado (por culpa dela 46 própria e pela falsa noção de que é possível substituir informação confiável 47 por memes irresponsáveis da internet), fica fácil concluir que a situação beira 48 perigosamente o abismo. Tanto o estudo de Stanford quanto a matéria 49 do Washington Post se referem ao público norte-americano. Mas, o Brasil poderia 50 ter sido o cenário, e o resultado seria o mesmo. Ou pior. 51 Se o leitor chegou até aqui, com certeza vai querer deste articulista alguma 52 sugestão de como se pode sair deste imbróglio. A resposta está na ponta da língua, 53 nem precisa esperar: não sei. *** Paulo José Cunha é jornalista e professor. http://observatoriodaimprensa.com.br/imprensa-em-questao/mentira-como-materia-prima/ - Acesso em 26.06.17 Todas as questões referem-se ao texto “A mentira como matéria prima”.
Aponte a figura de linguagem comum a ambas as expressões sublinhadas a seguir: “Para ganhar caminhões de dinheiro (...)” (linhas 26-27) e “Nem de ganhar carradas de dinheiro” (linhas 37-38).
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.


