Questões de Língua Portuguesa · FJPF (UFRJ)

Língua PortuguesaEstratégias e tipos de argumentoFJPF (UFRJ) 2006

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Questão de Língua Portuguesa

7 Leia o texto abaixo e responda às questões que seguem. Chegar à maturidade tem suas vantagens, e uma delas é redescobrir pequenos prazeres que a agitada existência nos havia feito esquecer. Um desses prazeres é o da caminhada. Que, aliás, está na ordem do dia. De um lado, trata-se de um excelente e acessível exercício físico; de outro, é fonte de encantamento, com milhões de entusiasmados adeptos por esse mundo afora. Querem uma prova? Entrem na Internet e digitem uma expressão do tipo “The Joy of Walking”, a alegria de caminhar. Vocês obterão, como eu obtive, 1.260.000 referências sobre o tema. Bota alegria nisso! Caminhar é uma coisa antiga. Data do período em que o ser humano se tornou bípede, o que, aliás, acarretou uma profunda transformação na espécie, uma transformação que acabou por nos diferenciar de outros primatas. Nosso cérebro cresceu, ficamos mais inteligentes, aprendemos a pensar e a falar. Nossas emoções se refinaram e passamos a atribuir valor simbólico aos atos da existência, à caminhada inclusive. Mesmo porque esta sempre se associou a passagens transcendentes da história da humanidade. Grande parte da vida de Cristo decorreu nas estradas e caminhos; seguir os passos de Jesus é uma coisa que muitos fiéis fazem em Jerusalém. Depois de Cristo, surgiram muitos caminhantes notáveis, como foi o caso de Jean Jacques Rousseau (1712- 1778), escritor e filósofo francês. Sexagenário, Rousseau redescobriu o prazer de caminhar, graças ao qual pôde “ver em seus detalhes, o espetáculo da natureza, que até então só contemplara como uma massa e em seu conjunto”. Esta observação aparece em sua obra famosa, Devaneios de um caminhante solitário, e explica por que Rousseau foi uma espécie de precursor do moderno movimento ecológico. Mas havia outra razão para que ele caminhasse: “Só posso meditar”, dizia, “andando. Minha mente trabalha apenas quando transportada por minhas pernas”. 0 exemplo de Rousseau foi seguido por numerosos poetas e escritores do romantismo. Caminhando, eles buscavam inspiração para suas obras. Do poeta Wordsworth dizia-se que sua biblioteca estava dentro de casa, mas o escritório em que trabalhava era o espaço natural. 0 pensador Henry David Thoreau escreveu um célebre ensaio intitulado Walking, Caminhar. Trata-se, assegurava Thoreau, de uma arte, para a qual é preciso amadurecer: “Quando você chegou a um equilíbrio em sua vida”, dizia, “então você está pronto para caminhar”. E, podemos acrescentar, depois que adquirimos o hábito de caminhar, ele passa a fazer parte de nossa existência. Disto posso dar um testemunho pessoal: mesmo em viagem, não deixo de levar tênis, bermuda e camiseta. Aliás, caminhar é uma grande maneira de conhecer um lugar novo. Que tem, por sua vez, os seus próprios caminhantes, com costumes locais. Lembro-me de uma pequena cidade em que fui caminhar na praça central. Cruzei com muitas pessoas e todas me olhavam com estranheza, o que me deixou intrigado: seria aquilo uma manifestação de desagrado contra o forasteiro? Nada disto, explicou-me o gerente do hotel; é que os habitantes da cidade costumavam caminhar num sentido e eu estava caminhando no sentido inverso, o que se constituía em uma verdadeira heresia. Discrepâncias à parte, o fato é que nós, os caminhantes, formamos uma verdadeira tribo, cujos membros podem ser vistos no Central Park, de Nova York, no Ibirapuera, em São Paulo, na Avenida Atlântica, no Rio, no Parque Farroupilha, em Porto Alegre. Partilhamos o mesmo prazer e enfrentamos os mesmos (raros) problemas: a chuva, por exemplo. Os cachorros agressivos. E aqueles eventuais amigos que encontramos no trajeto e que querem nos deter para contar uma história, ignorando que nada, mas nada mesmo, deve deter um caminhante. Navegar é preciso, diziam os portugueses no século dos descobrimentos. Caminhar é preciso, dizemos hoje. Como os navegadores, estamos em busca do novo, do surpreendente. Mas, diferente dos navegadores, não precisamos cruzar o oceano para isso. Podemos descobrilo numa paisagem familiar. Ou podemos descobri-lo em nossos devaneios, em nossas meditações. Assim caminha a humanidade era o título de um antigo, e belo filme. Assim caminhamos nós. E caminhamos muito bem, obrigado. (SCLIAR, Moacyr. Fórum de Transporte. Pedestre e Transporte. www.pedestre.org.br.)

Na defesa do ponto de vista de que a caminhada é um dos prazeres que redescobre quem chega à maturidade, o autor do texto usou inúmeros argumentos. Analise as afirmações abaixo sobre os argumentos usados pelo autor. I - Por estar na ordem do dia, a caminhada é um excelente e acessível exercício físico, além de fonte de encantamento, com milhões de entusiasmados adeptos por esse mundo afora. II - O ser humano passou a caminhar desde que se tornou bípede, postura que lhe acarretou uma profunda transformação, a ponto de o diferenciar de outros primatas. III - A postura bípede de caminhante levou ao crescimento do cérebro humano, o que proporcionou ao homem mais inteligência, aprendendo a pensar e a falar, bem como o refinamento das emoções, o que lhe permitiu atribuir valor simbólico aos atos da existência. IV - A caminhada sempre se associou a momentos difíceis da história da humanidade, e prova disso é que grande parte da vida de Cristo foi marcada pelo sofrimento nas estradas e caminhos, de modo que até hoje caminhar em Jerusalém, seguindo os passos de Jesus até o Calvário, é uma coisa que muitos fiéis fazem. V - Para Rousseau, o prazer de caminhar proporcionou-lhe uma visão em detalhes do espetáculo da natureza, além de permitir-lhe uma completa meditação, caminho seguido por poetas e escritores românticos. VI - Caminhar é uma maneira bastante satisfatória de se conhecer um lugar novo, descobrindo-se, pelos hábitos dos caminhantes, os costumes locais. VII - Os caminhantes formam uma tribo urbana universal, partilhando o mesmo prazer e enfrentando poucos problemas comuns, como a chuva, os cachorros agressivos e ainda um ou outro amigo que, inadvertidamente, querem interrompê-los para uma conversa. 8 A respeito das afirmações acima sobre os argumentos usados pelo autor, pode-se afirmar que:

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