Questões de Língua Portuguesa · FAURGS

Língua PortuguesaCorrelação de tempos e modos verbaisFAURGS 2016

TJM RS

Questão de Língua Portuguesa

01. Todo mundo teve ao menos uma namorada esquisita, 02. comigo não foi diferente. Beber é trivial, bebe-se por 03. prazer, para comemorar, para esquecer, para suportar 04. a vida, mas beber para ficar de ressaca nunca tinha 05. visto. Essa era Stela, ela bebia em busca do lado escuro 06. do porre. Acreditava que precisava desse terremoto 07. orgânico para seu reequilíbrio espiritual. 08. Sua ressaca era diferente, não como a nossa, tingida 09. de culpa pelo excesso. A dela era almejada, portanto 10. com propriedades metafísicas. Nem por isso passava 11. menos mal, sofria muito, o desconforto era visível, 12. pungente. Tomava coisas que poucos profissionais 13. do copo se arriscariam, destilados das marcas mais 14. diabo. Ou então era revés de um vinho da Serra com 15. nome de Papa, algo que nem ao menos rolha tinha, 16. era de tampinha. Bebida que, com sua qualidade, 17. desonrava, simultaneamente, os vinhos e o pontífice. 18. Não era masoquismo. Acompanhando suas 19. peregrinações etílicas, cheguei a outra conclusão: ela 20. realmente precisava daquilo. Stela inventara uma 21. religião do Santo Daime particular, caseira, sabia que 22. era preciso passar pelo inferno para vislumbrar o céu. 23. Os porres eram uma provação cósmica, um ordálio 24. voluntário, um encontro reverencial com o sagrado. 25. Depois da devastação do pileque, ela ficava melhor. 26. Uma lucidez calma a invadia, sua beleza readquiria os 27. traços que a marcavam, seus olhos voltavam ao 28. brilho que me encantara. Tinha mergulhado no poço 29. da existência e reavaliado seus rumos. Durante dias a 30. paz reinava entre nós e entre ela e o mundo. 31. Mas bastava uma nova dúvida em sua vida, uma 32. decisão a tomar, e ela requisitava mais um inferno para 33. se repensar. A rotina era extenuante. Quem aguenta uma 34. mulher que, em vez de falar sobre a vida, mergulha 35. num porre xamânico? Mas o amor perdoa. Lá estava 36. eu ajudando-a a levantar-se de mais uma triste 37. manguaça. Fiquei expert em reidratar e reanimar mortos, 38. em contornar enxaquecas siderais e em amparar dengues 39. existenciais. 40. Amava Stela pela inusitada maneira de consultar o 41. destino. Triste era o desencontro. Eu cansado por 42. cuidá-la depois de uma noite mal dormida, servindo de 43. enfermeiro, e ela radiante, prenha da energia que a 44. purgação lhe rendera. 45. Stela era irredutível no seu método terapêutico, 46. dizia que só nesse estado se encontrava com o melhor 47. de seu ser. Reiterava que era mais sábia durante o 48. martírio. Insistia que, sóbria, em seu estado normal, 49. sofria de um otimismo injustificado que lhe turvava a 50. realidade. Seu lema era: “Só na ressaca enxergamos o 51. mundo como ele é”. 52. Um dia, sem muitas palavras, Stela foi embora. 53. Alguma ressaca oracular deve ter lhe dito que eu não 54. era bom para seu futuro. Não a culpo. Adaptado de: CORSO, M. O valor da ressaca. Zero Hora, n. 18489, 02/04/2016. Disponível em: http://www.clicrbs.com.br/zero- hora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a5711255.xml&tem- plate=3916.dwt&edition=28691&section=4572. Acessado em 02/04/2016.

Considere as propostas a seguir de substituição de formas verbais do texto. I - Substituição de inventara (l. 20) por havia inventado. II -Substituição de marcavam (l. 27) por marcariam. III- Substituição de tinha mergulhado (l. 28) e reavaliado (l. 29) por mergulhara e reavaliara, respectivamente. Quais mantêm o sentido literal das frases em que se encontram?

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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.