Língua PortuguesaAcento diferencialFundatec 2014
Pref Vacaria
Questão de Língua Portuguesa
O que as gatas me ensinam 01 Há dois meses ando apaixonado por um par de gatas. Carlota e Elisabeth. Elas entraram em casa 02 por insistência da minha mulher e viraram parte da rotina. E da vida. Miam quando eu chego, sobem na 03 cama e cheiram a minha cara quando acordo, sentam no meu colo quando estou lendo ou quando escrevo 04 no computador. Eu falo com elas, brinco com elas, ralho com elas, dou comida e troco a areia da caixinha. 05 Elas me fazem agradável companhia quando estou sozinho. Em troca, compro religiosamente a ração 06 cheirosa que elas tanto apreciam. 07 O fato de ter um par de gatas não me torna um ser humano melhor, não me faz sentir uma espécie 08 de ativista e nem desconta a minha culpa – enorme – por não fazer o que é preciso para melhorar a vida 09 das pessoas desprotegidas do meu país. Não acho, evidentemente, que minhas gatas são tão importantes 10 quanto criaturas humanas que me cercam. Mas tê-las em casa me deixa contente. Cuidar delas e 11 conviver com elas são atos de prazer egoísta que me fazem bem, e que talvez façam bem a elas. 12 Também aprendo coisas com as gatas. 13 A primeira, óbvia, é que é bom cuidar delas. Pequenos rituais, como o de alimentar e tratar os 14 bichos, são imensamente gratificantes. Não tomam tempo demais e nos fazem sentir necessários e úteis. 15 Talvez algo em nós precise dessa responsabilidade sobre outra vida. Seres humanos necessitam de nós, 16 claro, mas eles são complicados e imprevisíveis. Podem nos criticar, podem exigir demais de nós ou 17 (infinitamente pior) podem virar as costas e ir embora. Gatos jamais. Eles não nos abandonam e não nos 18 desapontam. À maneira deles, vivendo uma vidinha paralela em sua bolha felina, passam a vida conosco. É 19 improvável que retribuam nossos ternos sentimentos, mas certamente precisam de nós. E isso basta. 20 Observando os gatos, sou tentado a fazer comparações e analogias com os humanos. 21 Minhas gatas têm personalidades opostas entre si. Elisabeth, de oito meses, é uma dama elegante 22 e delicada. Minha mulher a chama de bailarina. Ela se move com leveza pela casa e mantém distância 23 emocional e física dos humanos. Gosta de tomar banho de sol na janela sem ser importunada. Quando se 24 aproxima, é nos termos dela. Elisabeth canta. Ou melhor, mia desconsoladamente e sem razão aparente. 25 De início, achei que era o intestino. Agora eu percebi que Elisabeth é melancólica. A veterinária disse que 26 ela tem todos os ossos do rabo quebrado e uma calcificação óssea na espinha. Parece ter sido maltratada 27 antes de chegar ao abrigo onde a recolhemos. Isso explica o jeito esquivo e desconfiado, assim como a 28 tristeza dela. Elisabeth tem medo. Ou teve. 29 Carlota, dois meses mais nova, é um turbilhão. Sobe em todas as mesas, entra no guarda-roupa, 30 brinca com as plantas do vaso até destruí-las. É impertinente e destemida, assim como curiosa. Quando se 31 tenta tirá-la força de algum lugar, ela reage com arranhões. Nasceu na obra do novo estádio do 32 Corinthians, eu imagino. Se eu grito com ela, ou tento fazer gestos para assustá-la, me encara com total 33 indiferença. Como não teme pessoas, se aproxima com facilidade. Permite que a gente a pegue no colo 34 e brinque com ela. Outro dia, meio bebum, eu a segurei no chão pelas patinhas da frente e fiz barulho com 35 a boca na barriga dela, como se faz com as crianças. Ela ficou perplexa. 36 Carlota me faz pensar como são felizes as pessoas destemidas. Elas estão mais relaxadas. 37 Desfrutam melhor do mundo ao redor delas. Se alguém tentar incomodá-las ou feri-las, reagem e vão 38 embora. É mais simples, não é? Elisabeth, que tem medo de tudo, sugere que a vida deixa marcas. Não sei 39 se o tempo fará com que ela se sinta segura na companhia de gente. Talvez não. Talvez ela seja 40 naturalmente tímida. Mas isso faz que seja mais gostoso quando ela, num rompante, escala o sofá, supera 41 suas reservas e decide, autonomamente, que vai dormir na minha barriga. Nestas horas, minha gata 42 delicada faz com que eu me sinta alguém especial. 43 Fico tentado a imaginar que a mulher ideal seria a mistura das duas. A meiguice de uma com a 44 impetuosidade da outra. A melancolia da Elisabeth com a vivacidade da Carlota. Mas isso não existe, certo? 45 A personalidade das pessoas não é construída para nos agradar ou para fazê-las mais desejáveis. Elas são 46 como são. Imprescindíveis, adoráveis ou detestáveis sua maneira. E alternadamente. 47 Neste exato instante, escrevendo com Carlota no colo, enquanto Elisabeth nos observa deitada na 48 estante do escritório, eu não sei de qual delas gosto mais. sua maneira, as duas enchem a minha 49 manhã. Uma mia, anda pela casa e observa. A outra escala a mesa, deita no teclado e termina por se 50 ajeitar no meu colo. Se fossem duas mulheres, eu não saberia qual escolher. Estaria apaixonado pelas 51 duas. Na verdade, pelas três gatas aqui de casa. (Ivan Martins – Revista Época – 20/11/2013 – disponível em http://www.revistadaepoca.com.br - adaptação) 2
Considerando o sistema ortográfico vigente, assinale a alternativa que apresenta vocábulo cuja supressão do acento possa originar palavra pertencente à mesma classe gramatical da palavra que lhe deu origem. .
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.



