Questões de Língua Portuguesa · Fênix Instituto

Língua PortuguesaInferências, pressupostos e subentendidosFênix Instituto 2025

Pref BJ Serra

Questão de Língua Portuguesa

Mais vida, menos tela 1 Eu sei que é difícil, mas é preciso, urgentemente, 2 fazer com que as nossas crianças tenham menos contato 3 com as telas e mais contato com a vida real. Eu sei. Você 4 chega cansado, às vezes frustrado, com as olheiras de 5 quem sobrevive — e não vive. Mas, ainda assim, é 6 preciso. 7 As telas, essas janelas luminosas que piscam, 8 vibram e engolem o tempo, também têm o seu valor. 9 Claro que têm. Não se trata de demonizar o mundo digital 10 — ele nos conecta, nos informa, nos liberta em muitos 11 aspectos. Mas, ao mesmo tempo, ele também aprisiona. 12 E o mais cruel? Faz isso em silêncio, com sorrisos, cores 13 vivas e efeitos sonoros. 14 O filósofo francês Jacques Ellul alertou que “a 15 técnica é o conjunto de métodos racionalmente 16 elaborados e que apresentam, em um dado estágio do 17 desenvolvimento, a maior eficácia possível em todos os 18 campos da atividade humana” (A Sociedade 19 Tecnológica, p. 21). Ou seja: ela não pede licença — ela 20 se impõe. E, quando tomamos como naturais os seus 21 avanços, sem questionar o que estamos perdendo, 22 viramos reféns bem-comportados de um sistema que 23 apenas simula liberdade. 24 Lembra quando a infância era feita de terra nas 25 unhas, histórias contadas de improviso, cabanas feitas 26 com lençóis velhos e cadeiras da sala? Quando um 27 graveto era uma espada e uma poça d’água, um oceano? 28 Não havia tutorial para brincar. A imaginação era o GPS, 29 e a rua, o infinito. 30 Hoje, nossas crianças mal sabem o que é entediar- 31 se. E isso é perigoso. Porque é no tédio que nasce a 32 criatividade. É no vazio que a alma cria forma. Contar 33 histórias aos filhos — como faziam os nossos avós — 34 não é um ato de entretenimento: é um ritual de 35 transmissão de mundo. Branca de Neve, Os Três 36 Porquinhos, João e o Pé de Feijão… não eram apenas 37 contos; eram metáforas de vida, lições cruas disfarçadas 38 em fábulas, pedagogia ancestral. Hoje, em vez da voz do 39 pai ou da mãe narrando um conto à meia-luz, temos 40 youtubers gritando em vídeos editados como se todos 41 sofressem de déficit de atenção. O tempo da infância está 42 sendo comprimido. Com um dedo, as crianças pulam de 43 um vídeo para outro, de uma emoção à seguinte. Sem 44 pausa. Sem elaboração. Sem digestão. 45 Ellul também nos advertiu sobre isso: “A ciência revela tudo aquilo que o homem havia considerado 46 sagrado. A técnica se apropria disso e o escraviza.” (A 47 Sociedade Tecnológica, p. 142). O que era humano, 48 afetivo, simbólico — foi mecanizado. A infância também 49 corre esse risco. 50 Claro, as telas são tentadoras. São babás eficientes, 51 52 baratas e incansáveis. Mas o custo disso? É a terceirização da infância. Quando deixamos nossos filhos 53 à mercê do YouTube, do TikTok ou dos joguinhos 54 viciantes, não estamos apenas economizando energia. 55 Estamos, sem perceber, ensinando a eles que o mundo 56 real é entediante demais para merecer atenção. Estamos 57 empurrando nossos filhos para o precipício da 58 passividade. 59 A infância não pode ser terceirizada. Ela precisa ser 60 compartilhada. Não basta colocar comida no prato e uma 61 62 escola no currículo. É preciso estar junto. Sentar no chão. 63 Inventar vozes para os personagens. Jogar memória. 64 Brincar de mímica. Ser bobo. Ser vulnerável. Ser pai e 65 mãe de verdade — não apenas administradores de 66 tarefas. Sei que você trabalha demais. Que o trânsito é 67 um inferno. Que a vida cobra boletos e paciência em 68 prestações mensais. Mas também sei que seu filho não 69 precisa de um iPad novo. Ele precisa de você. Não de um 70 “você” perfeito, mas de um “você” presente. E, se 71 continuar assim — com a criança presa à tela por horas 72 e mais horas, sem filtro, sem pausa, sem sentido —, bem, 73 é bom já ir se acostumando com o olhar vidrado, a fala 74 rápida, o tique nervoso. 75 Porque, daqui a pouco, seu filho vai estar tão 76 dependente da dopamina digital quanto um viciado em 77 crack está da próxima pedra. E, acredite, é isso que o 78 algoritmo quer: dependência. 79 Sim, estou sendo duro. Mas a verdade raramente é 80 delicada. 81 E antes que você pense que este texto é apenas 82 sobre crianças, deixo o espelho: isso vale para você 83 também. O adulto que não larga o celular para jantar. 84 O que se perde no feed e não vê o tempo passar. O 85 que troca um pôr do sol real por uma foto de pôr do sol 86 em Bali — com filtro. O que vive menos a vida do que 87 documenta a tentativa de vivê-la. 88 O sociólogo Zygmunt Bauman, ao falar da 89 modernidade líquida, escreveu: “As relações humanas 90 são agora como líquidos: fáceis de moldar, mas difíceis 91 de manter em qualquer forma estável.” (Modernidade 92 Líquida, p. 8). E o que é a internet senão a liquidez 93 absoluta do afeto? A presença evaporada. O abraço 94 substituído por emojis. Um dia, quando seu filho estiver 95 grande, ele talvez não lembre do presente caro que você 96 deu. Nem da série que assistiram lado a lado, sem trocar 97 uma palavra. Mas ele vai se lembrar — e com uma 98 dorzinha no peito — do dia em que você desligou o 99 celular, se abaixou e virou um monstro da história que ele 100 inventou. Vai lembrar da sua voz tremendo ao fazer a voz 101 do lobo. Da risada que escapou quando o castelo de 102 almofadas desabou. 103 Você não precisa ser mágico. Só precisa estar. 104 Estar ali, inteiro. Sem Wi-Fi. Sem filtro. Presente, feito o 105 tempo que não volta mais. 106 Porque, no fim, o que eterniza a infância não são as 107 telas. São os toques. Os silêncios. 108 E os olhos que dizem: “Eu estou aqui. E você vale 109 todo o meu agora.” Autor: Felipe Daroit (adaptado).

O autor utiliza exemplos da infância no passado e da rotina tecnológica atual para reforçar sua argumentação. Com base nisso, é possível inferir que: I. As brincadeiras e interações do passado favoreciam a criatividade e a conexão afetiva entre pais e filhos. II. O uso excessivo das telas compromete o desenvolvimento da imaginação e das habilidades sociais. III. A tecnologia, quando utilizada sem moderação e mediação, reforça a passividade e a dependência comportamental. Está correto o que se afirma em:

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