Língua PortuguesaInterpretação de textosPROAD UFOP 2012
UFOP
Questão de Língua Portuguesa
Dicionário condenado O Ministério Público Federal, via Procuradoria de Uberlândia, parece que, a pedido, quer proibir a circulação do dicionário Houaiss sob a alegação de conter referências preconceituosas e racistas na palavra “cigano”. Admiro o MP, atento defensor do interesse público, mas, nesse caso, pisou na bola. Um dicionário cometer crime?! Na infância, fomos atemorizados pela lenda de que ciganos roubavam crianças para vender. Nossos pais não a criaram; vinha de remotas eras – daí estar no dicionário, que oferece todos os sentidos da palavra: do significado objetivo, real e estável, até o figurado, acolhendo todas as mutações, que, no tempo, enriquecem a língua. No Houaiss impresso, cigano surgiu em 1521: relativo ao ou próprio do povo cigano; zíngaro, relativo a ou indivíduo dos ciganos, povo itinerante que emigrou do Norte da Índia para o Oeste (antiga Pérsia, Egito), de onde se espalhou para os países do Ocidente; calom. Que ou aquele que tem vida incerta e errante; boêmio. Vendedor ambulante de quinquilharias; mascate. Em sentido pejorativo: que ou aquele que trapaceia; velhaco, burlador, que barganha, apegado ao dinheiro, agiota, sovina. Que ou o que serve de guia ao rebanho (de carneiro). O mesmo na versão digital. Nas duas estão definidos os usos pejorativos, que não são criação do dicionarista. Seu trabalho é compilar do idioma, falado e escrito, atual e passado, as palavras, locuções, afixos etc., e registrar as definições, sinônimos, antônimos, ortografia, pronúncia, classe gramatical, etimologia etc. Dicionarista não sugere, inventa ou cria palavras, não as censura, educa ou depura, não as corrige, moraliza ou atenua preconceitos. Sua arte é capturar as definições e nuances de sentidos e compilar, ciente de que a língua muda como a brisa, e seu trabalho não tem fim. Mortas e vivas, as palavras convivem no dicionário. Mortas podem renascer e vivas, finarem, pelo poder do uso, única lei que as pode governar e decretar-lhes vida ou morte. A mais fantástica criação humana, a língua é anônima, coletiva e consensual, inquieta e incessante: o dicionário jamais vai esgotar suas mutações. No entanto, intangível, faz-se de morta se não é usada. “Para onde vão as palavras quando cessa a fala?”, indaga T. S. Elliot. Que é da escrita, se não se a lê? – me indago. Criação do homem, a palavra inexiste sem ele. Como julgar, culpar, punir ou banir uma ideia abstrata, que, sem autoria nem vida própria, torna-se arma para eventual usuário? A palavra está para o preconceito como o punhal para o assassinato! Se há preconceito em cigano, que dizer de judiar: “adotar práticas judaicas, tratar com escárnio, zombar, tratar mal física ou moralmente, maltratar, atormentar”? O MP pune o Houaiss; e o Aurélio define igual o cigano: “Indivíduo de povo nômade, com código ético próprio; dedica-se à música, artesanato, ler a sorte, barganhar cavalos. Boêmio, gitano, calom, judeu (MG), errante, de vida incerta, trapaceiro, velhaco, vendedor ambulante. Nômade, ladino, astuto”. Onde foi parar a isonomia? Se quem se sente prejudicado pode mutilar dicionários por meio de ações judiciais, o cronista vai exigir revisão do verbete alcione: cortar referências à ave fabulosa de canto plangente tida pelos gregos como de bom augúrio, e à estrela central da plêiade em torno da qual gira o sistema solar. Alcione deve registrar apenas: modesto cronista que, entre os séculos 20 e 21, dedicou-se a temas amenos e frívolos. Ganha a causa, condena-se o dicionário e o cronista se salva. Há maior vexame? (ARAÚJO, Alcione. Dicionário condenado. Estado de Minas, BH, 12 mar. 2012. Caderno Cultura, p. 8) 1
O segundo parágrafo permite concluir:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

