Língua PortuguesaCrônica e contoFACET 2024
Pref Princesa Isabel
Questão de Língua Portuguesa
Leia o texto abaixo e, em seguida, responda: (Cristovão Tezza) Entre as muitas consequências do advento da internet, prolifera uma curiosa fusão das linguagens, ou talvez, melhor dizendo, a criação de novas funções e novos gêneros da linguagem. O primeiro deles já é quase arqueológico de tão popular: o e-mail. Ainda bem que não sou saudosista – se eu vivesse chorando o passado, diria que o e-mail enterrou para todo o sempre o gênero de escrita que em boa medida me ensinou a escrever: a carta. A carta é uma forma literária clássica, cuja composição é em si uma lenta divisão do tempo – ela era escrita para ser entregue pelo menos dois ou três dias mais tarde. A carta pressupunha um tempo lento, cadenciado; escrever uma carta era também fazer uma síntese e um retrospecto de uma semana, de um mês, de acontecimentos demorados que, linha a linha, o escriba organizava na cabeça. Uma carta punha ordem e perspectiva no mundo; os fatos se organizavam em bloco e eram explicados em parágrafos. Não lembro de nenhum momento em que senti necessidade de escrever rsrsrs para indicar que eu estava rindo naquele momento; no máximo, um discreto ponto de exclamação. Quem escreve cartas é sempre um “narrador”, alguém a distância, e não uma pessoa ao vivo. No entanto, a carta também era uma conversa. O amigo ou a namorada ou o tio ou o pai abriam o envelope (outro ritual – sempre evitar rasgar o selo; havia um objeto chamado “corta-papel”, hoje peça de museu), sentavam numa cadeira, e ficavam sabendo com um grau razoável de ordem da vida do outro. Às vezes tinham vida longa, passavam de mão em mão pela família e amigos, Veja como o Toninho está bem! – e às vezes, secretas, eram imediatamente trancadas na gaveta para uma releitura solitária, suspirante e saudosa. Carta não tinha vírus nem pegadinhas; se por acaso chegassem fotos obscenas ou sugestões de invasão de privacidade, era bem possível que o envelope fosse parar na polícia – ou nos filmes policiais, em que cartas anônimas sempre brilharam como personagens poderosas. Sim, cartas eram conversas, mas sóbrias, com a noção de hierarquia e de espaço sempre organizados: Curitiba, 7 de novembro de 1956. Querida Maria: - seguiam-se as notícias. As cartas também foram uma marca histórica da vida individual, da afirmação pessoal; e, transformadas em literatura, muitas vezes se revelaram um retrato ético da sua época. Um exemplo maravilhoso é o romance epistolar As relações perigosas, do francês Choderlos de Laclos (1741-1803), que, ao deixar entrever a dissipação moral da nobreza da França, ajudou a fermentar o caldo em que pouco depois explodiria a Revolução Francesa. Mas eu me entusiasmei tanto para relembrar a carta que não deixei espaço aos e-mails e blogues, gêneros de um novo tempo, que funcionam, e bem, com outra lógica. Fica para a próxima carta – digo, crônica. [22/09/2009] TEZZA, Cristovão. Um operário em férias, organização e apresentação Christian Schwartz; ilustrações Benett. – Rio de Janeiro: Record, 2013.
Marque a alternativa INCORRETA, de acordo com o texto:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.
