Língua PortuguesaEstratégias e tipos de argumentoCCON UFSM 2017
UFSM
Questão de Língua Portuguesa
1 uem quiser saber por que o futebol se tor- quem entra em campo são os pés. Nesse momento, Qnou o esporte mais popular do planeta terá 30 eles são valorizados e podem mostrar sua força, sua que rebolar. Certamente a causa é multifatorial, mas arrisco uma teoria. 5 O futebol é o reverso do mundo do trabalho. É território do ócio, do esforço não produtivo, da pontaria, sua destreza. Enquanto a motricidade das mãos é essencial para qualquer diligência prática, a dos pés nunca é treinada. Mão é cultura, pé é natureza. Poderíamos ter duas pernas esquerdas que competição brincalhona. No mundo prático, quem 35 ninguém perceberia. Já no futebol, é a inteligência governa são as mãos, e elas são o símbolo do trabalho. Não dizemos mão de obra, dar uma mão, 10 botar a mão na graxa? A mão é produção e nobreza. É ela que escreve, opera máquinas e aperta botões. motora dos pés que vale. O pé, como parte mais baixa do corpo, está ligado à terra, e recebe seus encantos pela sua condição animal, sua força indomada. No campo, os pés estão livres para chutar, Os pés nos levam de um lado a outro, mas são me- 40 para correr, driblar, mostrar ao mundo e às mãos ros coadjuvantes, estão a serviço das artes das mãos. 15 No mundo do avesso, são os pés que mandam, são eles que dançam, que jogam bola. No seu valor. As mãos quase falam, os pés são mudos. As mãos são imperialistas, não basta trabalharem, são elas que afagam, que selam pactos. São elas que campo, a mão não vale, não entra em jogo. Pu- 45 deslizam pelo corpo do ser amado. Os pés querem dessem tirá-la, os jogadores o fariam, elas estão ali só para dar graça e harmonia à corrida. Para não 20 dizer que são completamente inúteis só servem para saída lateral, a cobrança mais rasa e insigni- sua parte, seu quinhão de importância, para isso ganharam os gramados de domingo. A cabeça encontra razão motora apenas no futebol, na vida não damos cabeçadas. Usamos a ficante do futebol. Quem pode usá-las é o goleiro, 50 cabeça para pensar a vida, mas ela fica quieta sobre mas ele é a exceção e é o masoquista do time. Ele é o mediador entre esses mundos, é o único que não 25 pode correr pelo campo, está fixo como um trabalhador no seu setor. Brinca mas não tanto, está no os ombros e no máximo segura um chapéu e ganha um afago. Só no futebol, ela pode ser animal e desferir um golpe fatal no adversário. Com o futebol e o uso lúdico dos pés e da cabeça, a democracia corpo- pior lugar. Indispensável, mas excêntrico ao grupo. 55 ral se estabelece, o corpo se integra e vive a No fim de semana, as mãos tiram folga e felicidade de um feriado com sol. CORSO, Mário. Os pés e as mãos. Zero Hora, edição impressa de 19 de junho de 2014.
Ao longo do texto, no desenvolvimento de sua argumentação, o autor enfatiza a primazia dos pés nos gramados, em oposição às mãos, e acrescenta ponderações sobre a colaboração da cabeça nos campos de futebol. Os fragmentos destacados a seguir são evidências dessas duas estratégias, EXCETO
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

