Língua PortuguesaFormas nominais do verboCebraspe 2024
UnB
Questão de Língua Portuguesa
Daiara Tukano. A redenção. 2022. Pintura acrílica sobre tela 1m x 1m. Exposição “Nhe’ē Porã”, Museu da Língua Portuguesa. Meu tio o Iauretê Me deixaram aqui sozinho, eu nhum. Me deixaram pra trabalhar de matar, de tigreiro. Não deviam. Não sabiam que eu era parente delas? Oh ho! Oh ho! Tou amaldiçoando, tou desgraçando, porque matei tanta onça, por que é que eu fiz isso?! É porque onça não contava uma pra outra, não sabem que eu vim pra mor de acabar com todas. Tinham dúvida em mim não, farejam que eu sou parente delas... Eh, onça é meu tio, o jaguaretê, todas. Fugiam de mim não, então eu matava... Depois, só na hora é que ficavam sabendo, com muita raiva... Eh, juro pra mecê: matei mais não! Não mato. Posso não, não devia. Castigo veio... Gosto de pensar que matei, não. Meu parente, como é que posso?! Ai, ai, ai, meus parentes... Careço de chorar, senão elas ficam com raiva. Elas sabem que eu sou do povo delas. Primeira que eu vi e não matei, foi Maria-Maria. Eh, parente meu é a onça, jaguaretê, meu povo. Mãe minha dizia, mãe minha sabia, uê-uê...Jaguaretê é meu tio, tio meu. Ã-hã. Nhem? Mas eu matei onça? Matei, pois matei. Mas não mato mais, não! Nhuão Guede trouxe eu pr’aqui, ninguém não queria me deixar trabalhar junto com outros... Por causa que eu não prestava. Só ficar aqui sozinho, o tempo todo. Prestava mesmo não, sabia trabalhar direito não, não gostava. Sabia só matar onça. Ah, não devia! Ninguém não queria me ver, gostavam de mim não, todo mundo me xingando. Maria-Maria veio, veio. Então eu ia matar Maria-Maria? Como é que eu podia? Podia matar onça nenhuma não, onça parente meu, tava triste de ter matado... Tava com medo, por ter matado. Nhum nenhum? Ai, ai, gente... João Guimarães Rosa. Meu tio o Iauaretê. In: Estas estórias. Rio de Janeiro: José Olympio, 1962, p. 6, 8, 15 e 16 (com adaptações). O fragmento de texto precedente foi extraído do conto Meu tio o Iauaretê, de Guimarães Rosa, que versa sobre um indígena que é contratado para trabalhar como um tigreiro matador de onças.
A respeito das ideias veiculadas no texto e de seus aspectos linguísticos e literários, julgue os itens seguintes. No trecho “Tou amaldiçoando, tou desgraçando” (sétimo período), o emprego do gerúndio indica que a maldição e a desgraça que pesam sobre o narrador já terminaram, uma vez que ele parou de matar onças.
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.




