Questões de Língua Portuguesa · Marinha

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Questão de Língua Portuguesa

Os meninos de Porto Mosquito José Eduardo Agualusa O Benfica, clube português de que sou (vagamente) torcedor, divulgou neste Natal um breve vídeo sobre uma intervenção da Fundação Benfica numa pequena localidade do arquipélago de Cabo Verde, chamada Porto Mosquito. O futebolista Nuno Gomes foi a Porto Mosquito entregar uma dúzia de pares de chuteiras a meninos da comunidade. Numa primeira cena vemos os meninos a jogarem futebol, descalços, num campo pelado. Numa segunda cena assistimos à alegria deles enquanto recebem as chuteiras, as calçam, e começam a jogar. Eis que chega, entretanto, um novo grupo de meninos, de pés nus sobre a poeira. Cada um dos primeiros descalça então uma das chuteiras, oferecendo-a aos segundos. Jogam todos eles com um pé calçado e outro descalço. Na cena final, Nuno Gomes pergunta a um dos meninos: “Por que vocês jogam com um pé descalço?” O menino olha-o, divertido: “Não, amigo, nós jogamos com um pé calçado”. O vídeo recordou-me um episódio antigo. Há muitos anos, durante a guerra civil em Angola, visitei uma fábrica de próteses situada numa pequena cidade, Viana, a poucos quilômetros de Luanda. Encontrei numa das salas um objeto estranho, que não faria má figura numa qualquer mostra de arte moderna. Era uma perna, ou algo com a forma de uma perna, agregando materiais diversos presos por arames e cintas de ferro, numa espécie de assemblage¹ cruel e desvairada. “Isto foi uma prótese” - elucidou-me um médico. Meses antes um camponês entrara na fábrica, pelo seu pé, mas mancando um pouco. Perdera a perna no tempo colonial. Recebera uma prótese e regressara à aldeia remota onde vivia. Entretanto, vieram a independência e a guerra civil. Passaram-se décadas. O homem quebrara a prótese várias vezes, e, sem ninguém a quem recorrer, consertara-a ele mesmo com aquilo que tinha à mão. A prótese crescera em peso e em deformidades, até se transformar no que ali estava. “Ele vinha à procura de uma prótese nova” - contou-me o médico. - “Explicou-me que com aquela já não conseguia dançar.” Nunca soube o nome daquele camponês, nunca o vi, mas penso sempre nele, em todas as festas de passagem de ano, enquanto cumpro a tradição de comer as doze uvas, uma por cada mês que virá, formulando doze desejos. Embora nunca tenha compreendido muito bem qual a relação entre uvas e desejos, esforço-me por levar o desafio a sério. Supondo que os tais doze desejos me fossem realmente concedidos, o que poderia eu pedir? Num primeiro e fugaz instante a minha lista parece um inventário de compras de alguém que acabou de ganhar a loteria; logo a seguir, porém, penso naquele camponês que só queria uma prótese nova para poder voltar a dançar e a tal lista torna-se inquietantemente idêntica ao discurso de uma Miss Universo após receber a coroa: saúde para todos, justiça e a paz universal. Talvez devêssemos prestar mais atenção à sabedoria das misses. Na obra filosófica de referência desta classe profissional (vamos chamar-lhe assim), obra que todas as misses citam quando lhes perguntam o que estão a ler, ou seja, O Pequeno Príncipe², de Antoine de Saint-Exupéry, está tudo dito: “o essencial é invisível aos olhos”. Um amigo, mais entendido em misses do que eu, assegurou-me que Saint-Exupéry já era. Agora as misses leem Paulo Coelho e Dan Brown. Mais recentemente, E. L. James. [...]. Já a minha avó, que nunca foi miss nem leu Saint-Exupéry, dizia que as melhores lições são as mais simples. Numa ocasião, após um debate em Estocolmo, com estudantes de literatura, achei-me no centro de uma outra discussão, muito mais viva e interessante, sobre as virtudes e defeitos da social-democracia nórdica. Irritado com a revolta (justíssima) de um dos estudantes, que visitara vários países de língua portuguesa e se mostrava chocado com a injustiça social em Angola e no Brasil, ironizei com os impostos altíssimos a que todo o mundo está sujeito na Suécia. Pensei, estupidamente, que, criticando os impostos, teria os estudantes do meu lado. Foi o contrário. Olharam-me, escandalizados, como eu olharia um skinhead³. Um deles explicou-me que o novo governo, de centro-direita, propusera, semanas antes, baixar os impostos, e que isso suscitara um vasto movimento de repulsa. “Prefiro ficar sem metade do meu salário”, assegurou-me um dos estudantes, “desde que isso signifique que, na Suécia, toda a gente tenha direito a bons sistemas de saúde e de educação.” Então, para 2016, vou repetir em conjunto com as misses: saúde para todos, justiça e a paz universal. (O GLOBO. 4 de janeiro de 2016- Texto adaptado) 1. assemblage: junção; acoplamento 2. Livro infantil, clássico da Literatura Francesa, publicado em 1943. Enunciado completo: “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos.” 3. skinhead: traduzido do inglês, “cabeça raspada”, é uma subcultura originária dos jovens da classe operária no Reino Unido no final dos anos 1960 que, mais tarde, espalhou-se para o mundo.

Assinale a opção em que o numeral destacado foi empregado para se referir ao termo “meninos”, anteriormente citado no texto.

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