Questões de Língua Portuguesa · Com. Exam. (MPE RS)

Língua PortuguesaPronomes relativosCom. Exam. (MPE RS) 2012

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Questão de Língua Portuguesa

01. Armatya Sen, Nobel de Economia em 1998, não é apenas um pensador singular que para a 02. transformação e expansão das fronteiras de disciplinas supostamente estanques: economia e ética filosófica. Ele é um 03. viajante global em busca da construção de um mundo melhor. Desde seus primeiros escritos, procurou expandir as 04. fronteiras, dadas como certas e fixas, da economia, estendendo-as para além dos tratamentos dominantes, 05. conectando-as a problemas políticos, sociais e filosóficos. Um de seus alvos foi a suposta necessidade de a 06. racionalidade ser estreitamente definida como um tipo de eficiência exclusivamente associada ao comportamento 07. autointeressado, com objetivos limitados ao próprio bem-estar e escolhas orientadas apenas para objetivos 08. autocentrados. 09. O Nobel afirma que a economia é uma ciência pobre em ética. Ficou, melhor dizendo. Nos seus fundamentos, 10. especialmente desde Adam Smith, havia um valor essencial orientando as considerações hoje fixadas corno de 11. racionalidade puramente instrumental e de eficiência econômica. Qualquer consideração sobre o chamado "bem 12. humano", incluindo valores, compromissos e objetivos não centrados no interesse pessoal, na dimensão 13. única da satisfação individual. E no passo seguinte a esse radical reducionismo, ao se interpretar monolíticamente 14. bem-estar como utilidade, a origem "ética" da economia desapareceu. Nesse movimento, todas as dificuldades do 15. utilitarismo como ética filosófica para baixo da mesa. Muito do trabalho pioneiro de Armatya pode ser visto 16. como uma metódica infusão das informações ligadas a aspectos valiosos na pálida avaliação dos problemas políticos e 17. sociais oferecida pela ortodoxia econômica. Tal é o caso dos males que assombram a opulência sem precedentes do 18. mundo atual: a pobreza extrema, a destituição e a exclusão sociais, a privação de direitos básicos, a carência de 19. oportunidades, e o desenvolvimento que não prioriza as pessoas, que trata a distribuição dos ganhos como uma 20. consequência magicamente automática. 21. Entre os temas mais fundamentais para análise e avaliação da vida em sociedade, encontra-se a própria 22. caracterização da justiça. Como julgar uma sociedade a partir do ponto de vista da justiça? Na tradição do chamado 23. "contrato social", o marco contemporâneo é a teoria da "justiça como equidade", de John Rawls, que inaugurou uma 24. análise sistemática da natureza da justiça com base nos "princípios de justiça": aqueles escolhidos em uma situação 25. contratual original delimitada por condições de imparcialidade e igualdade. Esses são princípios ideais, a partir dos 26. quais podemos escolher novas instituições sociais e julgar as existentes. Um dos problemas cruciais com essa 27. abordagem, afirma Sen, é que esses princípios não servem para fazer comparações entre situações específicas - 28. aquelas que realmente precisamos enfrentar e ponderar - e situações alternativas, entre as quais precisamos decidir 29. racionalmente o que é mais justo buscar realizar. 30. Em seu livro A Ideia de Justiça, Sen faz uma apresentação abrangente dos problemas que devem ser analisados 31. na construção de uma abordagem alternativa. O que está em questão não é apenas um desacordo sobre a métrica a 32. ser usada para avaliarmos a justiça ou o grau de injustiça de urna situação ou mesmo instituição social, mas a 33. concepção que temos do papel da razão prática na justificação dessa métrica e da natureza da imparcialidade, 34. objetividade e universalidade ética. Tendo como motivação básica produzir uma abordagem abrangente que funcione 35. como parte de um método racional para melhorar a justiça e reduzir as injustiças em sociedades democráticas 36. realmente existentes, a obra de Sen, como um todo, é um ponto de partida imprescindível para quem anseia por 37. corrigir as injustiças do mundo. Adaptado de: DONINELLI-MENDES, R. Zero Hora, 3 de março de 2012, p. 4·5.

"Nada paralisou mais a inteligência do que a busca por bodes expiatórios", escreveu o historiador Theodore Zeldin. A tentativa de jogar a culpa por uma situação indesejada - de desastres naturais a guerras, de crises econômicas a epidemias - nas costas de um único indivíduo ou grupo quase sempre inocente é uma prática tão disseminada _____ alguns estudiosos a consideram essencial para entender a vida em sociedade. No livro Bode Expiatório - Uma História da Prática de Culpar Outras Pessoas, Charlie Campbell defende a tese de que cada ser humano tende a se considerar melhor do que realmente é, e por isso tem dificuldade de admitir os próprios erros. Junte-se a isso a necessidade intrinsecamente humana de tentar encontrar um sentido, uma ordem no caos do mundo, e _____ os elementos exatos para aceitarmos a primeira e a mais simples explicação que aparecer para os males a nos afligir. Desde muito cedo, provavelmente com o surgimento das primeiras crenças religiosas, a humanidade desenvolveu rituais para transferir a culpa para pessoas, animais ou objetos como uma forma de purificação e recomeço. A expressão "bode expiatório" refere-se a uma passagem do Velho Testamento que descreve o sacrifício de dois ruminantes no Dia da Expiação. O primeiro bode era sacrificado em tributo a Deus, para pagar pelos pecados da comunidade. O segundo era enxotado da aldeia, carregando consigo, simbolicamente, a culpa de todos os moradores. A escolha do bode expiatório costuma obeceder a, pelo menos, um de três requisitos. Primeiro, deve ser alguém capaz de substituir sozinho muitas vítimas potenciais. Foi o que ocorreu com Andrés Escobar, zagueiro da seleção colombiana de futebol, _____ gol contra na partida com os Estados Unidos eliminou seu time da Copa do Mundo de 1994. Quando voltou à Colômbia, Escobar foi assassinado a tiros, supostamente por apostadores que haviam perdido dinheiro com a derrota. Por maior que tenha sido o erro do jogador, é óbvio que num time que tem onze integrantes não se pode atribuir a apenas um deles toda a culpa por um resultado ruim. O segundo quesito a ser preenchido por um candidato a bode expiatório é ser um alvo facilmente identificável. O ditador alemão Adolf Hitler, um dos mais cruéis inventores de bodes expiatórios de todos os tempos, achava que um verdadeiro líder nacional era aquele que, em vez de dividir a atenção de seu povo, tratava de canalizá-la contra um grande inimigo. Após séculos de antissemitismo na Europa, não foi difícil para os nazistas transformar os judeus em suas vítimas preferenciais, atribuindo a eles a responsabilidade por uma série de malfeitorias. A expiação coletiva imposta pelos nazistas resultou na morte de 6 milhões de judeus. O terceiro critério para encontrar um bom culpado é suspeitar de qualquer pessoa que tente defender a inocência de um bode expiatório. Na caça às bruxas da Idade Média, que resultou no julgamento e na execução de milhares de mulheres, funcionava assim. Os métodos para identificar uma "noiva do demônio" eram absurdos. Um deles consistia em jogar a acusada num rio com as mãos e os pés atados; se ela boiasse, seria culpada; se afundasse, seria inocente, mas aí já estaria morta. Nessas condições, poucos testemunhavam em favor das supostas bruxas. Essa regra também é atávica dos estados totalitários, que, _____, não podem assumir as próprias falhas sob o risco de perderem a legitimidade, e por isso precisam de alguém para expiar suas culpas.

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