Língua PortuguesaPronomes demonstrativos e possessivosDCPS IFRJ 2010
IF RJ
Questão de Língua Portuguesa
Texto I O futebol na ponta da língua A paixão pelo futebol no Brasil vem esgarçando os limites da língua portuguesa há aproximadamente um século. Como qualquer outra língua, o português é vivo, dinâmico, aberto ao que o povo inventa na rotina de seus afazeres e lazeres. Com um diferencial: a espontaneidade brasileira, talentosa em driblar convenções, acaba desencadeando um vocabulário futebolístico rico e bem-humorado, utilizado até mesmo pelos “esquisitões” que odeiam o esporte – a vingança dos fanáticos contra as exceções! Assim, é possível ouvir a cada esquina frases do tipo: fulano “pisou na bola”, ou sicrano “joga nas onze”. A rua torna-se o melhor dicionário desse léxico matreiro, inventado por jogadores, locutores e comentaristas esportivos, pouco a pouco absorvido pela língua geral. Ao ser dicionarizada, a gíria do futebol ganha status de verbete, e comemora-se: a lexicografia dobra-se à força do jargão e sela sua vitória no cotidiano linguístico brasileiro. O próprio verbo “driblar”, usado no início deste texto, é um exemplo: no Aurélio, é descrito como ato de “ultrapassar o adversário, ludibriando-o por meio de movimentos corporais”. Embora signifique o movimento específico do jogador com a bola, o seu uso na linguagem corrente extrapola as margens do campo, sugerindo uma forma de subverter determinada situação – o que, aliás, cabe bem na tradição de uma certa “malandragem” brasileira e diz muito da intimidade do cidadão com a sua língua. Como atesta Ivan Cavalcanti Proença em Futebol e Palavra, “o jogador brasileiro é o que fala e fala o que é” – e isso acontece “através de um clima (e de uma força mesmo) intensamente poético: é a poesia do futebol, arte”. Essa poesia urdida na tradição oral e enriquecida literariamente por autores como Nelson Rodrigues possui uma só raiz: a paixão– seja do jogador, do torcedor ou do comentarista esportivo. – Sempre que deixamos a emoção tomar conta da linguagem, surgem vocábulos e expressões extremamente criativos e ricos para a nossa língua. O brasileiro, particularmente, é um povo que expressa sua emoção de uma maneira muito espontânea, fato que se reflete também na linguagem, mais especificamente, no léxico– explica Simone Nejaim Ribeiro, professora de Língua Portuguesa da Universidade Estácio de Sá (RJ). Autora da dissertação de mestrado A linguagem do Futebol: Estilo e Produtividade Lexical (UERJ), Simone concorda com outros estudiosos do tema para quem o vocabulário do futebol é uma “linguagem especial”. Assim, alguns vocábulos que poderiam, de início, soar como “desvios lingüísticos” deixam a margem para serem canonizados. É a razão sucumbindo à paixão. Não à toa algumas expressões do futebol são transpostas para o dia a dia, remetendo-se por vezes ao campo sexual – em alguns casos, até mesmo com excessiva malícia. Ouve-se dizer, por exemplo, que uma mulher “esconde o jogo”, ou que, no flerte ou no relacionamento, é “reserva”, não a “titular” (a principal). Homens fazem uma “marcação cerrada” quando desejam alguém e dizem “pimba na gorduchinha” (expressão de Osmar Santos que, a princípio, significa “chute na bola”) com um tonzinho que por vezes beira o vulgar. Tudo isso diz respeito ao brasileiro e suas predileções, à sua psicologia.Alíngua é espelho. Tanta criatividade origina mil e uma formas de se dizer a mesmíssima coisa. A bola, o grande objeto de culto, inspira incontáveis sinônimos: pelota, criança, perseguida, vagabunda, maricota, [...], redonda, gorduchinha. [...] Mas quem, afinal, formula todo esse jargão? – As expressões são uma criação dos jogadores e da imprensa. Romário criou, por exemplo, a expressão “peixe” para chamar algum companheiro, mas foram os jornalistas esportivos que, influenciados pela Liga Profissional de Basquete dos Estados Unidos (NBA), inventaram o termo “assistência”, para o jogador que dá o passe para outro marcar o gol. – dizAntônio Nascimento, editor deEsportedo jornalO Globo. Foi dessa forma que grandes nomes da locução e da crônica esportiva deixaram seu legado à língua portuguesa. [...] Inúmeras gírias não chegam ao dicionário, ou entram numa edição e saem na seguinte, por caírem em desuso. [...] Mas Silvio Lancellotti, comentarista da ESPN Brasil, compreende o caráter volátil desse “dialeto” dos campos: –Adicionarização nem sempre acompanha a velocidade da linguagem especial. Nem vai conseguir [...] - 1 - Prova Escrita Objetiva / TD-01 – TD-02 – TD-05 / Assistente em Administração Segundo Max Gehringer, existe uma diferença entre a “pátria de chuteiras” e outros países ligados ao esporte. – No Brasil, as expressões aparecem e somem mais rapidamente. Nós somos um povo que, historicamente, adota e descarta palavras, de qualquer idioma, sem muito pudor linguístico. Essa postura à vontade diante da própria língua é provavelmente uma das razões da expressividade dessa linguagem. Os jogadores também criam bordões, mas os cronistas esportivos obtêm maior êxito nessa tarefa pela velocidade com que conseguem difundi-los na mídia. Além disso, existe a pressão para que sejam originais e imprimam uma espécie de copyright na linguagem oral imagem da emissora.[...] – o que funciona como marketing próprio e fortalece a Para Max, o mais engraçado, atualmente, é ouvir jogadores de futebol usando termos que quase ninguém mais usa. [...] Num país de dimensões extraordinárias, os regionalismos são elementos a mais nesse vocabulário. Max Gehringer cita, por exemplo, a palavra “gol”, que no Rio Grande do Sul é “golo”; e as traves e o travessão são a “goleira”. Em Pernambuco, inventou-se o verbo “cascavinhar” para indicar o jogador que segura demais a bola. No contexto maior da língua portuguesa, Simone Nijaim pesquisou ainda termos distintos no Brasil e em Portugal: lá “alegado-fora-de-jogo” significa impedimento; rodada é “jornada”; e o gol é “moldura”. Se, “para entender a alma de um brasileiro, é preciso surpreendê-lo no instante de um gol”, como disse Armando Nogueira, para comunicar-se com ele, é necessário apreendê-lo em seu ponto sensível – a língua, esta que é tecida na alegria e na dificuldade do dia a dia, num jogo linguístico-esportivo em que o técnico é,sem dúvida, o povo. Adaptado de: HIDALGO, Luciana. O futebol na ponta da língua. Revista Língua Portuguesa Especial: Futebol e Linguagem, p. 9-13, abr. 2006.
Na oração Foi dessa forma que grandes nomes da locução e da crônica esportiva deixaram seu legado à língua portuguesa... (l. 42-43), o pronome demonstrativo retoma
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

