Língua PortuguesaConcordância verbal e nominalDCPS IFRJ 2008
IF RJ
Questão de Língua Portuguesa
Puristas costumam ser pretensiosos. Muitas vezes julgam-se os donos da língua e pensam que as pessoas deviam escrever ― ou até falar! ― como escreviam os autores do século 17. Esse pensamento vem ganhando espaço nas páginas dos jornais de maior circulação do País, legislando impunemente sobre o bom uso do idioma e desancando aqueles que, como o presidente Lula, não se enquadram no cânone coimbrão. 5 O maior problema não é a incoerência e o oportunismo desse tipo de raciocínio ― de criticar alguns “erros” de algumas pessoas e omitir-se diante de “erros” de certas pessoas ― nem a inconveniência de prender-se a uma norma adventícia de uso da língua (no caso, a de Portugal). O pior defeito desses pseudo-eruditos é a sua ignorância. É comum se referirem à linguagem popular como algo “desarticulado” e “absolutamente carente de regras”. Isso revela um grande desconhecimento de como funciona a linguagem humana. Gramática mental 10 O homo sapiens é uma espécie que se distingue dos demais primatas por possuir um poderoso dispositivo mental que lhe permite organizar de forma bem complexa suas percepções do mundo e expressar seus pensamentos em frases, com um poder criativo potencialmente ilimitado. E todo ser humano é dotado desse dispositivo, constituído por um complexo sistema de regras, que nem o mais sofisticado programa computacional até hoje produzido possui. 15 Assim, não há uma frase sequer que seja falada sem o acionamento desse complexo mecanismo. Esse dispositivo mental de regras gerador de frases é tecnicamente chamado gramática. Todo ser humano possui essa capacidade em sua mente. O livro a que chamamos “gramática” é apenas uma tentativa aproximada de representar esse sistema mental, fundamentada em alguma teoria sobre a linguagem humana. O que existe, portanto, são gramáticas diferentes, ou seja, distintas programações lingüísticas mentais. 20 Desse modo, a frase que o purista considera errada não é estruturalmente ilógica nem carente de regras, mas organizada segundo uma lógica estrutural e uma gramática distinta daquela do purista e de sua lógica (no mais das vezes anacrônica). Vejamos alguns exemplos. Uma frase como “os menino brinca demais” faz arrepiarem todos os fios de cabelo de um gramático tradicional. Entretanto, o que se operou na linguagem popular foi a eliminação de um mecanismo redundante e sem 25 valor comunicativo, a concordância. Na forma padrão “os meninos brincam demais”, a mesma informação de que se trata de mais de um menino é dada três vezes, no artigo “os”, no substantivo “meninos”, e na forma verbal “brincam” ― só uma vez seria suficiente. Tanto é assim que a frase popular tem o mesmo sentido da forma padrão, que é, portanto, redundante. Sem entrar no mérito do papel que as regras de concordância têm no processamento lingüístico subjacente, 30 a eliminação dessas regras não compromete o poder comunicativo da linguagem. (...) Um sistema é superior ao outro? Um tem regras e lógica e outro não tem? De forma alguma. Os dois são igualmente estruturados, apenas segundo lógicas diferentes. Cabe a nós enquanto falantes fazermos as nossas escolhas conforme a nossa formação cultural e de acordo com a situação em que nos encontramos, sem discriminar, menosprezar ou repudiar aqueles que, em razão da diversidade cultural da nossa sociedade, falam 35 diferentemente. Tachar uma variedade da língua de ilógica, desarticulada e carente de regras não é apenas ignorância, é um ato abominável de preconceito. E o preconceito lingüístico não é somente fruto do desconhecimento, é sobretudo o resultado de uma opção ideológica, daqueles que desejam manter a exclusão social e são incapazes de viver com a pluralidade e a riqueza das diferenças culturais. LUCCHESI, Dante. In: Discutindo Língua Portuguesa. Ano 1, n. 6. São Paulo: Escala Educacional, 2007.
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Assinale a afirmativa correta a respeito da frase “os menino brinca demais” (linha 23), segundo o texto.
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.
