Língua PortuguesaGêneros textuaisFronte 2025
Pref Piraju
Questão de Língua Portuguesa
Tantas são as velhas árvores Ainda não anoitecera e a notícia tinha sido confirmada. Parecia que uma nuvem de paz voltaria a reinar sobre a nossa casa e nossa família. Papai me pegou pela mão e diante de todos me sentou no colo. Balançou devagar a cadeira para que eu não ficasse tonto. — Tudo passou, meu filho. Tudo. Você um dia vai ser pai e vai também descobrir como são difíceis certos momentos na vida de um homem. Parece que nada dá certo, provocando um desespero interminável. Mas agora, não. Papai foi nomeado gerente da Fábrica de Santo Aleixo. Nunca mais vai faltar nada nos seus sapatinhos na noite de Natal. Fez uma pausa. Ele também nunca mais ia esquecer daquilo para o resto da vida. — Vamos viajar muito. Mamãe não precisará mais trabalhar, nem suas irmãs. Você ainda tem a medalha do índio? Remexi os bolsos e encontrei a medalha. — Pois bem, vou comprar de novo um relógio e colocar a medalha. Um dia será seu... “Portuga, você sabe o que é carborundum?” E Papai falava e falava sempre. Me fazia mal seu rasto barbado roçar no meu rosto. O cheiro que escapava da sua camisa muito usada me fazia arrepios. Fui escorregando pelos seus joelhos e caminhei para a porta da cozinha. Sentei-me nos degraus e contemplei o quintal com o morrer de todas as luzes. Meu coração se revoltara sem raiva. “Que quer esse homem que me pega no colo?” Ele não é meu pai. Meu pai morreu. O Mangaratiba matou ele. Papai tinha me seguido e viu que os meus olhos se encontravam de novo molhados. Quase se ajoelhou para falar comigo. — Não chore, meu filho. Nós vamos ter uma casa muito grande. Um rio de verdade passa bem atrás. Grandes árvores e tantas, que serão só suas. Você pode fazer, armar balanços. Ele não entendia. Ele não entendia. Nenhuma árvore deveria ser tão linda na vida, como a Rainha Carlota. — O primeiro a escolher as árvores, será você. Olhei os seus pés, os dedos saindo dos tamancos. Ele era uma velha árvore de raízes escuras. Era um paiárvore. Mas uma árvore que eu quase não conhecia. — Depois tem mais. Tão cedo não vão cortar o seu pé de Laranja Lima. Quando o cortarem você estará longe e nem sentirá. Agarrei-me soluçando aos seus joelhos. — Não adianta, Papai. Não adianta... E olhando o seu rosto, que também se encontrava cheio de lágrimas, murmurei como um morto: — Já cortaram, Papai. Faz mais de uma semana que cortaram o meu pé de Laranja Lima. VASCONCELOS, José Mauro de. Meu pé de laranja lima. São Paulo: Melhoramentos, 1975, pp.119-120. Com adaptações.
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A estrutura, o conteúdo e a referência ao final do texto permitem interpretá-lo como:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.