Questões de Língua Portuguesa · DES IFSUL

Língua PortuguesaLinguagem verbal e não verbalDES IFSUL 2014

IF SUL

Questão de Língua Portuguesa

Será que o jeitinho brasileiro tem jeito?

Figura da questão (imagem do caderno de prova)

1 O "jeito" ou "jeitinho" pode se referir a soluções que driblam normas, ou que criam 2 artifícios de validade ética duvidável. O jeitinho pode ser também definido como "molejo, jogo 3 de cintura, habilidade de se dar bem em uma situação complicada". Muitos consideram o 4 jeitinho uma verdadeira qualidade do brasileiro, a qual demonstra criatividade e improvisação 5 ao driblar normas e convenções sociais para encontrar alguma solução. Só que, ironicamente, 6 ao resolver um problema, sempre cria outro. 7 Sob a impunidade do jeitinho, pequenos e grandes delitos se misturam numa linha 8 tênue, como se pudessem ser justificados de alguma forma. Coisas que alguns pensam ser 9 pequenas, como a não devolução do troco, a ocupação do lugar reservado para idosos e 10 deficientes, o ato de furar fila, a famosa “taxinha de urgência”, "agrado por fora” ou "taxa de 11 desembaraço", como já ouvi certa vez, até a compra do voto político, contribuem para a 12 constante evolução da abominável corrupção. Então, será que o jeitinho brasileiro pode ser 13 considerado como uma forma de corrupção? Muitas das vezes, nossa visão de corrupção está 14 fundamentada exclusivamente nos políticos, e não em nosso cotidiano, onde perpassam 15 nossas relações sociais. Dessa maneira, eu diria que o jeitinho se confunde com corrupção e é 16 transgressão, porque ela desiguala o que deveria ser obrigatoriamente tratado com igualdade. 17 Vale ressaltar que hoje em dia o jeitinho não é mais um modo de agir exclusivo dos 18 oprimidos, pois tem levado executivos estrangeiros que atuam em empresas no Brasil para as 19 salas de treinamento. Não que eles queiram se adaptar a essa realidade. O que eles querem 20 mesmo é entender e tentar driblar essa “malemolência” dos negócios no Brasil. Para esses 21 profissionais, a melhor tradução para esse “jeitinho” é a falta de planejamento, o que significa 22 conviver e trabalhar dentro da precariedade de muitos serviços públicos e sem uma 23 infraestrutura condizente com o potencial do país. Empresários europeus, japoneses e norte- 24 americanos relatam estupefatos que precisam, antes de fazer negócio, firmar laços de 25 camaradagem, tornarem-se amigos do empresário brasileiro como condição sine qua non, para 26 a realização do negócio, pois isso apressa as negociações. 27 Quer dizer, percebemos que o problema não está na pessoa, mas nos processos que a 28 envolvem. Se o problema fosse com 1 ou 1 dúzia de indivíduos, poderíamos afirmar que seria 29 um problema isolado, mas, quando um percentual alto é adepto do jeitinho, é sinal de que é 30 preciso analisar o que permite esse desvio de comportamento. Só se dá um jeitinho quando 31 existem brechas na lei ou falta de rigor na aplicação destas. Esse ato de se “ajeitar-às-coisas- 32 para-se-dar-bem" simplesmente passa por cima de outros indivíduos e traz prejuízos à 33 coletividade. É claro que ninguém quer obter desvantagens, mas não podemos concordar que 34 prevaleça a atuação do egoísmo e do individualismo. E o mais grave de tudo: justificar tudo 3 35 como “criatividade brasileira” e ainda aplaudir como sendo a cultura do nosso país. Desde 36 quando malandragem é cultura? 37 As premissas que garantem a popularidade do jeitinho é que todos procuram levar 38 vantagem em tudo o que fazem no seu dia-a-dia e que, portanto, para não ser trapaceado, 39 deve-se fazer o mesmo. Pensemos nos efeitos que esse círculo vicioso tem sobre nós, nossas 40 finanças e nossas vidas. A impressão que nos dá é a de que determinados modelos de 41 transgressões são aceitáveis e tornaram-se normais. Alguns devem lembrar de um comercial 42 antigo no qual o ex-jogador de futebol Gérson aparece empunhando um cigarro e dizendo: 43 "Este é pra você que gosta de levar vantagem em tudo, cerrrto?", dando origem à famosa Lei 44 de Gérson. Assim, parece que jeitinho se tornou norma de convivência na sociedade. Em 45 outras palavras, a cultura de que “malandro é malandro e mané é mané”; isso não é motivo 46 para orgulho, muito menos deve incorporar-se à nossa cultura. 47 E por fim, para não nos desanimarmos completamente, lembremos, então, de casos 48 que demonstram que nem tudo está perdido. Destaco a história do funcionário da Infraero que 49 devolveu uma maleta com alguns milhares de dólares para o seu dono. Esse fato mostra e 50 comprova que há brasileiros honestos. Pena que a maioria destes “Homens” não estão no 51 poder! 52 Então existe saída? Sim, existem saídas. Precisamos ser e ensinarmos nossos filhos a 53 serem cidadãos honrados e respeitadores das leis. É preciso uma reflexão individual de como 54 estamos construindo o que mais criticamos e acreditarmos na possibilidade de iniciarmos uma 55 reconstrução da ética individual e nacional. Que tal começarmos a pensar nisso já para a 56 próxima eleição? Não levemos para as urnas o “jeitinho brasileiro” e não votemos no “menos 57 pior”. Não adianta continuar a levar a vida de sempre, fingir que está tudo bem e repetir para 58 si que político é tudo igual e não tem como mudar. Conscientize-se de que o problema 59 também é seu! E meu também! É nosso! Tudo ficará mais fácil, é claro, quando a habilidade 60 de solucionar problemas do jeitinho brasileiro seja direcionada de forma positiva e seja 61 verdadeiramente uma virtude. Sine qua non: Expressão latina que indica uma cláusula ou condição sem a qual não se fará certa coisa. Disponível em: <elo.com.br/portal/colunistas/christianelima/ver/229708/sera-que-o-jeitinho-brasileiro-tem-jeito- .html> Acesso em: 10 mar. 2014.

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