Língua PortuguesaOração sem sujeito e verbos impessoaisQuadrix 2022
CRESS (AP)
Questão de Língua Portuguesa
De bico aberto. 1 Quem tem ouvidos, ouça. Nove, dez, onze horas, meia-noite, pouco importa. É a hora em que os brasileiros vão dormir. Escuta o formidável silêncio, entrelaçado de 4 casa a casa, de rosto a rosto. Preste mais atenção: é a hora em que os brasileiros dormem. Mas os brasileiros não estão dormindo. Estão insones e secos, estirados em catres e 7 redes, camas de ferro, leitos de madeira e aço, colchões de espuma de borracha. Não ressonam, estão de olhos abertos, como bichos no escuro do mato. Não dormem, 10 pensam. Pensando na morte? Há muito que os brasileiros não pensam mais na morte. Lembrando tempos passados? O passado deixou de existir. 13 A fumaça de cigarros e cachimbos abafa os quartos, onde os brasileiros pensam, de olhos vermelhos, músculos doídos, olhos acesos. Na Amazônia, no Nordeste, nos 16 descampados do Oeste, na região Centro-Sul de nosso dissipado orgulho industrial, os brasileiros estão insones e pensam com uma fatalidade triste e estúpida. Há muito que 19 se esqueceram do tricampeonato que não veio. Há muito que não esperam qualquer vitória particular ou coletiva. Pensam, mas nem chegam a buscar uma solução do 22 pensamento. É um pensamento espesso e pesado como uma pedra; e significa humilhadamente isto: onde vou arranjar o dinheiro? 25 Hoje, quem não pensa isso, insone e duro, está naturalmente desligado da difusa comunidade brasileira. Não tem nada com o imenso resto da realidade coletiva. 28 Ricos, remediados e pobres pensam todas as noites, olhos acesos, quarto esfumaçado: onde vou arranjar o dinheiro? Industriais, industriários, comerciantes, comerciários, fazendeiros, funcionários civis e militares, lavradores, homens do campo, o pensamento insone do Brasil é este: onde vou arranjar o dinheiro? 34 Falta sempre dinheiro. Falta dinheiro para pagar a comida, o remédio, os empregados, o colégio, o enterro, o banco, a prestação — e ninguém dorme. Repare na expressão dos brasileiros, quando caminham sozinhos na cidade e no campo: duros, chateados, alastrados desse intolerável eczema que é a falta de dinheiro. Mas de boca 40 fechada — olhem bem —, eles estão todos de bico aberto. Como galinhas perseguidas por um menino que se diverte com um porrete em um dia de calor. Paulo Mendes Campos. De bico aberto. In: O mais estranho dos países: crônicas e perfis. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 178 (com adaptações).
Quanto aos aspectos semânticos e gramaticais do texto, julgue os itens de 6 a 17. Na linha 27, o verbo ter está empregado como verbo impessoal, veiculando o sentido de existir.
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.


