Questões de Língua Portuguesa · Pró-Reitoria GP CP2

Língua PortuguesaSignificação de palavras e expressões em contextoPró-Reitoria GP CP2 2017

CP II

Questão de Língua Portuguesa

1 Ela era cria da casa-grande, desde menina. Distraía-se e divertia-se com qualquer coisa, sem sorrir: não 2 era alegre. Andava de corpo solto, boca aberta, olhos redondos. Quando a dona da casa estava irada, chamava- 3 a de débil mental. Diziam que qualquer homem a teria, se quisesse. Ela não ficava contente mas grávida. Então 4 os patrões, realmente cansados de distribuir por famílias os seus filhos, a injuriavam. Não usavam violência 5 porque por princípio não eram violentos. Mas se ela almoçava, diziam: é claro, a fome duplicou. Se não 6 almoçava, diziam: é claro, perdeu o apetite. Mandavam-na trabalhar com ironia: “mas não vá ter antes do tempo! 7 já arrumamos com que família esse aí vai ficar!” Ela não se ofendia. O corpo crescia, e ela ficava cada vez mais 8 amarela sob a cor de mulata quase branca. O que os patrões não perdoavam é que dessa vez tivesse acontecido 9 com um “negro sujo”, como se eles tivessem para ela planos de um homem menos negro e mais limpo. Às vezes, 10 quando ela passava com a bandeja na mão, olhavam-na com curiosidade e diziam em tom velado por causa 11 dos netos presentes: logo um negro sujo. Um dia pareceu compreender melhor e disse muito alto: mas foram só 12 três vezes! As crianças exultavam felizes, o pai, a mãe e os avós caíram em cólera pela pouca vergonha, 13 expulsaram-na da sala – ainda por cima tropeçou no tapete e caiu sobre a bandeja. Mas não era escrava, como 14 a outra cria da casa. A outra cria da casa de Laranjeiras tornara-se uma mulher perfeita para cuidar das roupas 15 e das crianças, uma verdadeira escrava. Mas ela não era escrava: vivia independente deles e dava à luz os seus 16 próprios filhos, distribuídos depois como gatos, amarelados como a mãe. 17 Dois anos depois encontrei-a na rua e ela me disse com modéstia e recato que vivia com um português. 18 “Estou agora mesmo esperando por ele, marquei encontro”, me disse encostada no poste. Ele afinal apareceu 19 na curva da esquina: velho, e era por isso que ela não estava grávida, gordo, trôpego. “Ele é muito bom para 20 mim”, disse, como se explicasse tudo. Ele se manteve a curta distância, ouviu a frase, e abaixou os olhos, escondendo nunca se saberá o quê. LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p. 118. 2

Os adjetivos “solto”, “aberta” e “redondos” (linha 2) servem como justificava, no contexto, para o fato de os patrões julgarem a personagem

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