Língua PortuguesaNumeralFundatec 2020
Prefeitura Municipal de Frederico Westphalen/RS Concurso Público
Questão de Língua Portuguesa
O consumismo nunca foi tão cafona 01 Um micro-organismo colocou por terra, em algumas semanas, uma sequência genética 02 capitalista, forjada em anos de lavagem cerebral. Você precisa disso! Não dá pra viver sem 03 aquilo! Compre! Compre mais! O livro se conhece pela capa! A veste faz o monge! Eu mesma – 04 devo reconhecer e confessar – sou bastante consumista. Já fui mais, é verdade. Houve uma 05 época na qual comprar era mesmo uma compulsão. 06 Certa vez, saí de casa para trabalhar, num mês de março qualquer. Fazia quase 30 graus 07 logo cedo. Vesti uma calça leve, calcei sandálias e uma bluzinha de seda. Na hora do almoço, o 08 tempo virou bruscamente. Então, pensei: “Já que vou sair pra almoçar, passo no shopping e 09 compro um casaquinho!”. A ideia em si não era ruim, nem absurda, posto que realmente estava 10 frio. Naquele dia, eu tinha curso à noite e só voltaria pra casa depois das dez da noite. Acontece 11 que, em vez de comprar um inocente casaquinho, voltei do almoço com três botas novas, dois 12 pares de meia e quatro casacos. Detalhe: em vez de almoçar, engoli dois pães de queijo com 13 um café duplo. 14 Eu precisava de tudo o que comprei? Claro que não! Comprei porque estava na liquidação? 15 Também não! As vitrines estavam começando a ser abastecidas com a nova coleção 16 outono/inverno. Usei tudo o que comprei? Pior que não! Uma das botas que comprei machucava 17 o dedinho. Um dos casacos pinicava e o outro tinha uma gola irritante que apertava o pescoço. 18 Eu tinha dinheiro sobrando, então? Não! Paguei tudo no cartão de crédito, cuja fatura já beirava 19 a estratosfera. comprei tanta coisa, então? era economicamente 20 burra! Minha mente funcionava no seguinte modo: eu me ferro tanto nesse trabalho, sofro tanto 21 pra ganhar esse salário que mereço ter tudo que eu quiser! Eu mereço! Eu mereço! Eu mereço! 22 Mereço o quê? Gastar meu dinheirinho suado com pilhas e mais pilhas de coisas inúteis? Encher 23 o mundo de lixo? Abarrotar meus armários e gavetas com roupas, sapatos, bolsas e acessórios 24 e não usar nem a metade? Servir de escrava da engrenagem do mundo neoliberal que repete 25 sem parar o mantra: compre, compre, compre? 26 Bem, o fato verdadeiro é que o tal trabalho que me garantia dinheiro pra essa esbórnia 27 consumista acabou por me adoecer. Pedi demissão e minha renda caiu pela metade. Fazendo 28 faxina nos armários, um dia eu contei 117 pares de sapato! Não, eu não me orgulho disso! Na 29 verdade, eu morro de vergonha. Fiquei com 15 pares, o que ainda é bastante, e doei o restante 30 pra ser vendido num bazar assistencial. A partir daí, comecei a me curar. Adotei a prática de 31 que, pra entrar algo novo, tem de sair algo velho. Então, quando vejo que não há nada em 32 minhas posses que eu queira descartar, não compro. Simples assim! Comecei a ser capaz de me 33 perguntar: “eu preciso mesmo disso?”. E mais importante: aprendi a responder honestamente a 34 esta pergunta. E, finalmente, depois de muita terapia, aprendi a reconhecer quando o impulso 35 da compra é apenas uma estratégia estúpida para tampar um buraco emocional. 36 Da próxima vez que você estiver sendo abduzido(a) pelo site de compra da grife, da 37 promoção irrecusável, da negociação a qualquer custo que sempre vai caber no seu bolso, 38 desculpe-me, de coração mesmo, mas procure usar esse dinheiro pra ajudar quem não tem 39 nada, quem passa fome, quem mora em zonas vulneráveis onde falta água, luz, esgoto… Falta 40 tudo. Compre aí uma carga de papel higiênico, álcool gel, máscara e doe, né? Não vai depositar 41 tudo aí na sua casa, certo? Compre uns respiradores e mande entregar em hospitais carentes de 42 tudo. Deixe de ser cafona! A moda agora é ser minimalista, não produzir lixo, não jogar comida 43 fora, respeitar a natureza, deixar a pele, as unhas e os cabelos respirarem. Até porque, caso 44 você adoeça, não vai ser esse monte de tralha chique acumulada aí na sua casa que vai lhe 45 salvar! Pense nisso! Porque pensar também voltou a ser chique! (Disponível em https://www.contioutra.com/o-consumismo-nunca-foi-tao-cafona - texto adaptado especialmente para esta prova).
A palavra “duplo” representa um numeral:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.


