Questões de Língua Portuguesa · CRESCER

Língua PortuguesaFrase, oração e períodoCRESCER 2012

Pref Jijoca de J

Questão de Língua Portuguesa

1 Os últimos acontecimentos no Brasil, que nos causam um crescente desconforto, inconformismo, 2 descrença e vontade de escapar de tanta escuridão, precisam ser revistos com olhar afinado para que possamos 3 procurar padrões, respostas, caminhos. A crise de identidade nos puxa para dentro de nós mesmos e desconstrói 4 a autoimagem de cordialidade e hospitalidade que tem sido a base de nossa identidade nacional, ao lado da 5 miscigenação e do sincretismo antropofágico que elegem valores como o jeito moleque, o drible, a ginga e a 6 malemolência, como prerrogativas para a felicidade. 7 Áudios vazados descortinam a conspiração de importantes figuras públicas apenas interessadas em 8 manter o status quo para salvaguardar suas vantagens corporativas e assegurar impunidades constitucionais – a 9 repetição da história de pouco mais de 500 anos do nosso país. As estruturas do poder refletem nossa 10 colonização, nossas elites conservadoras, nossa mentalidade autoritária, repressora, violenta. A democracia, 11 ainda jovem no Brasil, enfrenta a resistência de uma cultura forjada no sangue e na subjugação do outro. Nada 12 muito diferente do que acontece em outras democracias pelo mundo, já que a história das nações é repleta de 13 disputas fratricidas pelo poder. A novidade é que hoje uma parte considerável das pessoas tem acesso aos 14 acontecimentos em tempo real e canais onde podem expressar sua voz. Esse contexto é propício para avançarmos 15 para um novo patamar da democracia, mas o novo se confronta com o velho e as resistências de todo tipo 16 afloram, raivosas. 17 A desigualdade/violência contra as mulheres também é um tema em alta em vários lugares do mundo. 18 A luta pela igualdade entre os gêneros (incluindo aqui LGBTTs) em suas várias frentes, mobiliza, engaja e 19 empodera mulheres e minorias, aumentando a consciência de todos nós. Esse movimento mais uma vez toca em 20 algo ancestral, talvez o aspecto cultural mais arraigado que se possa encontrar – o papel do homem. Na coletiva 21 de imprensa dos delegados/secretário de segurança/Ministro da Justiça, que investigam um caso escandaloso de 22 estupro, ninguém consegue explicar por que suspeitos identificados não estão presos. A gravação e divulgação 23 do vídeo, a presença deles no momento em que estava sendo exposta a intimidade de uma adolescente de 16 24 anos, nada disso leva à detenção, nem mesmo preventiva. Não existem elementos jurídicos suficientes, eles 25 dizem. A cristalização do papel do homem está na legislação, está nos estatutos das instituições, na formação 26 dos profissionais, no senso comum que baliza nossas relações cotidianas. Mesmo as estruturas econômicas de 27 competição e disputa de poder são heranças da mentalidade guerreira, masculina em essência. 28 É possível argumentar que tudo o que construímos até aqui, como humanidade, é resultado dessa visão 29 de mundo e que não teríamos conseguido de outra forma. Mas mesmo esse argumento está estruturado na cultura 30 hegemônica. Não se trata de uma competição para definir qual o melhor modelo, ou de um julgamento do que é 31 do bem e o que é do mal. A mentalidade da guerra não pode servir como parâmetro para o novo que se anuncia. 32 O mergulho é profundo, catártico. Ao mesmo tempo que, como brasileiros, somos compelidos a 33 repensar os parâmetros históricos que construímos para nossa convivência social, temos que rever nossos 34 impulsos atávicos que afloram estimulados pela reação defensiva que nos quer seguros em nossa zona de 35 conforto, por mais nefasta que ela seja. Uma dissonância cognitiva que nos obriga a agir, seja para conservar, 36 seja para mudar. Por isso tantas manifestações emocionais, rompimentos, agressões e ranger de dentes. Dói e a 37 dor é um motor potente. 38 Mais do que qualquer outro país, nossa miscigenação e nosso sincretismo antropofágico podem nos 39 ajudar a caminhar para esse futuro mais democrático e mais feminino. A ginga, a malemolência, a capacidade 40 de se adaptar e construir relações cordiais e hospitaleiras, sonho identitário que baliza nossa busca pela 41 felicidade, tem uma relação muito forte com o feminino. Nossa pátria mãe gentil, nós os filhos da floresta, 42 devotos de Iemanjá e de Nossa Senhora Aparecida, abraçaremos por fim os valores que nos são tão caros – a 43 amizade, o cuidado, o brincadeira, a transcendência. Desta vez, temos que fazer uma escolha consciente pela 44 ternura, mas ela prevalecerá porque já existe dentro de nós. MAURICIO ZANOLINI – FONTE: https://bloguniversidadelivrepampedia.com/2016/05/31/a-crise-de-identidade-do-brasil-nos-reinventara/

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